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Apkallu: os sábios lendários que trouxeram a sabedoria divina ao mundo

Os Apkallu, cuja natureza e origem permanecem incertas, são frequentemente mencionados nas tabuinhas de argila inscritas em escrita cuneiforme da antiga Mesopotâmia. É provável que os apkallu tenham tido um papel importante na mitologia mesopotâmica antiga como intermediários entre deuses e homens.

Estatuetas de Apkallu

O termo é usado em vários contextos, por vezes como epíteto para reis e deuses e como sinónimo de conhecimento e sabedoria. Neste artigo exploraremos a mitologia e a religião mesopotâmica antiga para encontrar indícios sobre estes misteriosos apkallu.

Origem e significado do termo Apkallu

Considera-se que o termo «apkallu» é acádio, talvez derivado do mais antigo sumério «abgal». O sumério era a língua do antigo Sumer, falada na Mesopotâmia meridional e centro-meridional desde meados do sexto milénio até ao início do III milénio a.C. (5500 – 1900 a.C.).

A origem da língua suméria não é clara. Foi substituída pelo acádio, uma língua semítica oriental extinta, como principal língua falada da Mesopotâmia, que continuou a ser usada na antiga Babilónia e na Assíria.

O que significa Apkallu em acádio?

Pensa-se que o termo denotava uma forma de sabedoria e pode ser traduzido em português como «o sábio», «o sapiente» ou «o perito». Foi usado como epíteto para os deuses Ea e Marduk, mas aplicado também a outras divindades. Em alternativa, o termo indicava os sacerdotes, em particular os adivinhos.

Quem são os Apkallu?

Considera-se que os apkallu eram sábios e mestres da humanidade enviados pelos deuses para iluminar os homens. O deus Enki é indicado como seu criador. A sua primeira missão foi estabelecer cultura e civilização, ensinar à humanidade a cultivar a terra e a oferecer sacrifícios aos deuses.

Anteriormente os seres humanos não sabiam como venerar correctamente os deuses; por isso os deuses enviaram os apkallu a guiá-los. Os apkallu emergiram do mar; por este motivo estes antigos seres-peixe eram frequentemente representados nos relevos como híbridos peixe-homem. Os apkallu serviram como sacerdotes de Enki e conselheiros dos primeiros reis de Sumer.

Os Apkallu na mitologia mesopotâmica antiga

Referências aos apkallu como sábios encontram-se nos mitos sumérios escritos em tabuinhas cuneiformes. Uma lista de apkallu, entendidos como sábios divinos que aconselhavam o rei, aparece na Lista de reis e sábios de Uruk, datada do século II a.C.

Os primeiros sete sábios listados estavam associados aos reis que se considerava terem aconselhado. Na lista aparecem outros sábios, mas são definidos estudiosos e não de origem divina, pois apareceram após o Dilúvio, um mito do dilúvio mencionado na Epopeia de Gilgamesh.

Os sete sábios originais e os quatro estudiosos humanos que os seguiram são mencionados também em textos religiosos e no Poema de Erra. Este último conta como o deus Marduk baniu os apkallu de novo ao Abzu, as águas primordiais de que tinham emergido.

«Onde estão os Sete Sábios do Apsu, os puros peixes puradu, que exactamente como o seu senhor Ea (Enki) foram dotados de sabedoria sublime?»

Os Sete Apkallu: sábios em forma de peixe como mestres semi-divinos da humanidade

Embora os apkallu sejam mencionados em numerosas fontes antigas, incluindo a famosa Epopeia de Gilgamesh, onde são creditados como construtores das muralhas de Uruk, a maior parte do que sabemos sobre eles provém das obras de Beroso.

Estudioso babilónico do século III a.C., na época helenística, Beroso foi o autor da História babilónica, que se considera era composta de três livros. A sua obra perdeu-se, mas é frequentemente citada por autores clássicos como Flávio Josefo.

Uanna: o primeiro Apkallu que ensinou aos homens a ler e escrever

O primeiro e, provavelmente, o mais importante entre os sábios foi Uanna (ou Oannes), uma criatura que emergiu do mar no início da história. É descrito como tendo o corpo de um peixe, a cabeça e os pés de um homem e uma cauda de peixe.

Uanna ensinou aos homens a ler e escrever, os fundamentos da matemática e as artes e os ofícios que lhes permitiram construir uma civilização. É descrito como aquele «que completou os planos do céu e da terra.» Uanna regressou ao mar e foi seguido por outros sábios.

Como aparecia Uanna?

A seguinte descrição de Uanna encontra-se na obra de Beroso, como registada pelos autores gregos antigos:

«No primeiro ano fez a sua aparição, de uma parte do Mar Eritreu que confina com a Babilónia, um animal dotado de razão, chamado Oannes. [Segundo o relato de Apolodoro] o corpo inteiro do animal era semelhante ao de um peixe; e tinha debaixo de uma cabeça de peixe outra cabeça, e também pés debaixo, semelhantes aos de um homem, unidos à cauda do peixe. Também a sua voz e a sua linguagem eram articuladas e humanas; e uma sua representação é conservada até hoje.»

Adapa, o antigo sábio e figura mitológica por vezes identificada com Uanna

Adapa era uma figura mitológica listada como sábio na já citada Lista de reis de Uruk, como conselheiro do primeiro rei de Sumer, Ayalu. Foi criado pelo deus Enki, mas as suas origens e a sua natureza não são claras.

Uanna/Adapa pode ter sido o deus-peixe sumério cujo nome se tornou sinónimo de sabedoria. Segundo um hino templário sumério, os sete sábios proveniam de Eridu, a mais antiga cidade suméria, então situada na costa do Golfo Pérsico. Isto pode explicar por que os sábios eram descritos como emergidos do mar e com um corpo semelhante ao de um peixe.

Relevo de apkallu com cabeça de ave

Quem foram os sábios que seguiram Uanna?

Os sete sábios pré-diluvianos eram divinos e enviados como emissários pelas divindades para instruir e guiar os homens. Cada um deles estava associado a uma das antigas cidades sumérias e servia o seu rei em veste sacerdotal. Seis sábios apareceram após o primeiro, Uanna, listados na ordem da sua aparição:

  • Uanduga (Uannedugga), «que foi dotado de inteligência completa»
  • Enmedugga, «a quem foi atribuído um bom destino»
  • Enmegalamma, «que nasceu numa casa»
  • Enmebulugga, «que cresceu num pasto»
  • An-Enlilda, «o encantador da cidade de Eridu»
  • Utuabzu, «que ascendeu ao céu»

Os estudiosos consideram que a lista é cronológica, mas não parece haver um laço genealógico entre os sábios mesmos e os reis a que estão associados.

O último Apkallu antes do Dilúvio

Durante séculos os divinos apkallu agiram como mestres que aconselhavam os reis e asseguravam que os deuses fossem honrados nos templos de todo o antigo Sumer. No entanto, os deuses decidiram provocar um grande dilúvio em que o velho mundo desapareceu.

Os apkallu que apareceram após o dilúvio eram em parte divinos mas mortais. Foram chamados estudiosos, em vez de sábios, mas continuaram a servir os reis como conselheiros. Oito reis pós-diluvianos estão ligados a um sábio específico, incluindo Nabucodonosor I da Babilónia e Esaradão da Assíria.

As placas dos Apkallu eram usadas nas casas para afastar o mal

Como mestres divinos da humanidade, os apkallu tiveram um papel de primeiro plano na religião mesopotâmica antiga. Os comuns mesopotâmicos colocavam placas com representações dos apkallu como amuletos mágicos para afastar o mal e proteger a casa das maldições.

Representação dos Apkallu na arte mesopotâmica

Imagens que retratam os apkallu foram encontradas em relevos, sobretudo os do Império neo-assírio, durante o reinado do rei Senaqueribe (705 – 681 a.C.). Deviam proteger o palácio real dos espíritos malignos.

Os apkallu aparecem numa de três formas: de cabeça de ave, de cabeça humana ou com manto de peixe. Este último tipo representa uma figura humanoide que veste um manto de peixe suspenso do cimo da cabeça. A cabeça do peixe está directamente ligada e fundida com a cabeça humana.

Beroso descreve o primeiro apkallu, Uanna, com uma barba mas sem asas. O manto de peixe é o símbolo de Ea ou Enki, o deus sumério da água e do conhecimento. A sua contraparte eblaita e síria, Dagon, é por vezes chamada o deus-peixe babilónico, mas não se pode estabelecer um laço claro com Ea e os apkallu.

Os Sete Sábios na mitologia grega

É interessante notar a semelhança entre os apkallu (os sete sábios que viveram antes do Grande Dilúvio) e os sete sábios que se considera terem vivido durante a idade arcaica da Grécia (800 – 480 a.C.). São hoje considerados figuras semi-lendárias que os antigos gregos acreditavam terem lançado as bases da filosofia grega.

Presume-se que os gregos tinham tomado a ideia da Babilónia ou da Assíria. Como os apkallu, os sete sábios transmitiram os seus conhecimentos a outros, contribuindo para inaugurar uma nova era de progresso.

Quem foram os Sete Sábios gregos?

Foi o famoso filósofo ateniense Platão (427 – 347 a.C.) que mencionou pela primeira vez os nomes de sete sábios. Lista Tales de Mileto, Pítaco de Mitilene, Biante de Priene, Sólon, Quílon, Cleóbulo e Míson como os sete sábios originais que ensinaram aos gregos a filosofia.

As fontes gregas posteriores mencionam todas Tales, Pítaco, Biante e Sólon, mas havia um certo desacordo sobre as restantes três posições. Míson, Pitágoras e Periandro, entre outros, estão incluídos na lista dos sete sábios.

Deve notar-se, no entanto, que os gregos não atribuíam aos sábios qualidades divinas, como em vez disso ocorria com os apkallu mesopotâmicos.

Conclusão

Segundo a crença mesopotâmica antiga, os homens foram criados pelos deuses para trabalhar a terra e venerar os seus criadores através de sacrifícios rituais sob a forma de ofertas. Os primeiros homens demonstraram-se incapazes de desempenhar estas tarefas, o que impeliu Enki a enviar os sete apkallu (sábios) como mestres.

Relevo de Apkallu homem-peixe

Eis alguns pontos salientes sobre os Sete Sábios da Mesopotâmia:

  • Foram enviados pelos deuses para ensinar à humanidade a construir uma civilização. Ensinaram ao povo a escrever e aconselharam os reis sobre importantes questões de Estado.
  • Os baixos-relevos nas muralhas dos antigos palácios assírios representam-nos com mantos de peixe, provavelmente uma referência às origens da civilização mesopotâmica no Mar Vermelho.
  • Eram invocados como protectores da casa contra espíritos malignos e maldições.

Os apkallu continuarão a ser objecto de pesquisa para os estudiosos desejosos de revelar os segredos da antiga Mesopotâmia.

Criado: 11 de janeiro de 2022

Modificado: 26 de fevereiro de 2024