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Cárites: as deusas da beleza, do fascínio, da criatividade e da fertilidade

As Cárites, segundo a mitologia grega, eram deusas que inspiravam arte, beleza, natureza, fertilidade e benevolência. Estas deusas estavam sempre na companhia de Afrodite, deusa do amor e da fertilidade. O número das Cárites varia segundo as fontes antigas: algumas dizem três, outras cinco. Este artigo trata nomes e papéis das Cárites na mitologia grega antiga.

As Cárites na mitologia grega

As Cárites, deusas da beleza, do fascínio e da fertilidade na mitologia grega

Quem eram as Cárites?

Na mitologia grega as Cárites eram várias deusas dos fascínios de diferentes tipos e aspectos, como fertilidade, gentileza, beleza, natureza e também criatividade. Representavam todas as coisas boas da vida, e é por isso que estavam com a deusa do amor, Afrodite.

Os pais das Cárites

Fontes diferentes nomeiam divindades diferentes como pais das Cárites; os mais comuns são Zeus e a ninfa oceânide Eurínome. Pais menos comuns das deusas eram Dioniso, deus do vinho e da fertilidade, e Coronis.

Outras fontes afirmam que as Cárites eram filhas do deus sol Hélio e da consorte Egle, filha de Zeus. Segundo alguns mitos, Hera gerou as Cárites com um pai desconhecido, enquanto outros dizem que Zeus era o pai das Cárites com Eurídome, Eurimedusa ou Euante.

Os nomes das Cárites

Os membros das Cárites segundo Hesíodo

Como lemos, o número das Cárites varia segundo cada fonte, mas o mais comum era três. Os nomes das três Cárites, segundo o poeta grego antigo Hesíodo, eram Tália, Eutímia (também dita Eufrósine) e Aglaia. Tália era a deusa da festividade e dos banquetes ricos, enquanto Eutímia era a deusa da alegria, da diversão e do bom humor. Aglaia, a mais jovem das Cárites, era a deusa da abundância, da fertilidade e da riqueza.

Os constituintes das Cárites segundo Pausânias

Segundo o geógrafo grego Pausânias, Eteocles, rei de Orcomeno, estabeleceu primeiro o conceito das Cárites e deu só três nomes às Cárites. Não há porém registos dos nomes que Eteocles deu às Cárites. Pausânias prossegue que o povo da Lacónia venerava só duas Cárites: Cleta e Fenna.

O nome Cleta significava renomada e era a divindade do som, enquanto Fenna era a deusa da luz. Pausânias notou que também os atenienses veneravam duas Cárites — Auxo e Hegémone.

Auxo era a deusa do crescimento e do aumento, enquanto Hegémone era a deusa que fazia florescer as plantas e dar fruto. O poeta grego antigo Hermesianax acrescentou porém outra deusa, Peito, às Cárites atenienses tornando-as três. Na visão de Hermesianax, Peito era uma personificação da persuasão e da sedução.

As Cárites segundo Homero

Homero mencionou as Cárites nas suas obras; porém não deu um número específico. Escreveu em vez disso que uma das Cárites chamada Cárides era a mulher deHefesto, o deus do fogo. Além disso fez de Hipno, deus do Sono, o marido de uma das Cárites chamada Pasiteia ou Pasitee. Cárides era a deusa da beleza, da natureza e da fertilidade e Pasiteia era a deusa do repouso, da meditação e da alucinação.

As Cárites segundo outros poetas gregos

Antímaco escreveu das Cárites mas não deu número nem nomes, indicando que eram prole de Hélio, o deus sol, e Egle, a ninfa do mar. O poeta épico Nono deu o número das Cárites como três e os seus nomes eram Pasiteia, Aglaia e Peito.

Outro poeta, Sóstrato, manteve também três Cárites e nomeou-as Pasiteia, Cale e Eutímia. A cidade-Estado de Esparta, porém, venerava só duas Cárites: Cleta, deusa do som, e Fenna, deusa da benevolência e da gratidão.

O papel das Cárites na mitologia

Segundo a mitologia grega, o papel principal das Cárites era servir as divindades maiores, sobretudo durante festividades e reuniões. Por exemplo, antes de Afrodite ir seduzir Anquises de Troia, as Cárites banharam-na e ungiram-na na cidade de Páfos para a fazer parecer mais atraente. Cuidaram também de Afrodite depois de ela deixar o Olimpo quando veio à luz a relação ilícita com o deus Ares. As Cárites teceram e tingiram também as longas vestes de Afrodite.

As deusas cuidavam também de alguns humanos, em particular Pandora, a primeira mulher criada por Hefesto. Para a tornar mais bela e sedutora, as Cárites apresentaram-lhe colares fascinantes. Como parte das responsabilidades, as Cárites organizavam banquetes e danças para os deuses no Olimpo. Executavam algumas danças para entreter e anunciar o nascimento de algumas divindades, incluindo Apolo, Hebe e Harmonia.

Em alguns mitos as Cárites dançavam e cantavam com asMusas, divindades que inspiravam ciência, artes e literatura.

Papel das Cárites na Ilíada

Na Ilíada, Hera organizou um casamento entre Hipno e Pasiteia como parte dos planos para seduzir Zeus e distraí-lo da guerra de Troia. Segundo a Ilíada de Homero, Aglaia era a mulher deHefesto. Alguns estudiosos consideram que Hefesto casou com Aglaia depois de Afrodite, a anterior mulher, ter sido apanhada em flagrante com Ares.

Quando Tétis precisou de uma armadura para o filho, Aglaia convidou-a ao Olimpo para que Tétis pudesse falar com Hefesto e fazer forjar uma armadura para Aquiles.

O culto das Cárites

Pausânias narra que Eteocles de Orcomeno (uma cidade na Beócia) foi o primeiro a rezar às Cárites, segundo o povo da Beócia. Eteocles, rei de Orcomeno, ensinou também aos cidadãos como sacrificar às Cárites. Mais tarde os filhos de Dioniso, Angelione e Tectau, realizaram uma estátua de Apolo, deus do arco, e esculpiram na sua mão as três Cárites (também conhecidas como as Graças).

Pausânias prossegue que os atenienses colocaram as três Graças à entrada da cidade e celebravam certos ritos religiosos perto delas. O poeta ateniense Pampo foi o primeiro a escrever um canto dedicado às Cárites, mas o canto não continha os seus nomes.

Culto das Cárites

A literatura existente indica que o culto das deusas afundava as raízes na história pré-grega. O objectivo do culto estava centrado na fertilidade e na natureza e tinha um laço especial com nascentes e rios. As Cárites tinham um grande seguimento nas Cíclades (um grupo de ilhas no mar Egeu). Um centro de culto encontrava-se na ilha de Paros e os estudiosos encontraram provas de um centro de culto do século VI na ilha de Thera.

Laço com os Infernos

O trio era de deusas ctónicas, também ditas divindades dos Infernos** **porque não havia flores nem música durante as suas festas. Um fenómeno comum a todas as divindades ligadas aos Infernos.

Segundo a lenda, porém, as festas não tinham coroas nem flautas porque Minos, rei de Creta, perdeu o filho durante uma festa na ilha de Paros e parou logo a música. Destruiu também todas as flores na festa e desde então a festa das deusas foi celebrada sem música nem coroas.

Porém a festa envolvia muita dança, comparável à festa de Dioniso e Ártemis, o deus e a deusa respectivamente da farra e do parto.

Templos das Cárites

O culto das deusas construiu pelo menos quatro templos dedicados à sua honra. O templo mais proeminente era em Orcomeno na região beócia da Grécia. Isso porque muitos acreditavam que o seu culto originava do mesmo lugar.

O templo de Orcomeno

Em Orcomeno, o culto das deusas ocorria num sítio antigo e envolvia três pedras que provavelmente representavam cada divindade. As três pedras não eram porém peculiares só ao culto das deusas: também os cultos de Eros eHeracles na Beócia usavam três pedras na veneração. Além disso o povo de Orcomeno dedicou o rio Céfiso e a nascente Acidália às três divindades. Como Orcomeno era uma cidade agrícola vibrante, parte da colheita era oferecida às deusas como sacrifício.

Segundo o geógrafo grego Estrabão, um rei de Orcomeno de nome Eteocles pôs os alicerces do templo, provavelmente pela riqueza que acreditava ter recebido das Cárites. Eteocles era também conhecido por cumprir obras de caridade em nome das deusas, segundo Estrabão.

Outras cidades e países que albergavam o templo das deusas incluíam Esparta, Élide e Hermíone. Os estudiosos referem outro templo em Amicle, cidade na região da Lacónia, que o rei Lacedémon da Lacónia construiu.

Associação com outras divindades

Em alguns lugares o culto das deusas estava associado a outras divindades como Apolo, o deus do arco e Afrodite. Na ilha de Delos, o culto ligava Apolo às três deusas e venerava-as juntas. Isso era porém único ao culto das Cárites: o culto de Apolo não reconhecia esta associação nem participava no seu culto.

No período clássico as deusas estavam associadas a Afrodite só em questões civis mas não religiosas. Como Afrodite era a deusa do amor, da fertilidade e do parto, era comum discuti-la no mesmo fôlego das três deusas do amor, do fascínio, da beleza, da benevolência e da fertilidade.

Representação das Cárites nas artes gregas

É comum ver as três deusas muitas vezes representadas completamente nuas, mas não era assim desde o início. As pinturas da Grécia clássica indicam que as deusas estavam elegantemente vestidas.

Os estudiosos consideram que a razão por que as deusas foram visualizadas nuas se deve aos poetas gregos do século III a.C. Calímaco e Eufórion, que descreveram o trio como nu. Porém não foi até aos séculos VI e VII a.C. que o trio foi retratado sem vestes.

A prova foi a estátua das deusas descoberta no templo de Apolo em Thermo, que remonta aos séculos VI e VII a.C. Além disso as deusas foram provavelmente retratadas num anel de ouro da Grécia micénica. A ilustração no anel de ouro mostrava duas figuras femininas que dançavam na presença de uma figura masculina que se crê ser Dioniso ou Hermes. Outro relevo que retrata as deusas foi encontrado na cidade de Tasos e remonta ao século V.

O relevo retrata as deusas na presença de Hermes e de Afrodite ou Peito e foi colocado à entrada de Tasos. Do outro lado do relevo estava Ártemis que coroava Apolo na presença de algumas ninfas.

Além disso à entrada havia uma escultura das Cárites e Hermes que remonta à era clássica da Grécia. A crença popular era que o filósofo grego Sócrates tinha esculpido aquele relevo; a maior parte dos estudiosos, porém, considera que é improvável.

Representações das Cárites nas artes romanas

Um fresco em Boscoreale, cidade em Itália, datado de 40 a.C., retratava as deusas com Afrodite, Eros, Ariadne e Dioniso. Os romanos retrataram também as deusas em algumas moedas para celebrar o casamento entre o imperador Marco Aurélio e a imperatriz Faustina Menor. Os romanos retrataram as deusas também em espelhos e sarcófagos (caixões de pedra). Os romanos retrataram as deusas também na famosa biblioteca Piccolomini durante o Renascimento.

Conclusão

Este artigo examinou as origens das Cárites, também conhecidas como Kharites, o seu papel na mitologia e como foram representadas visualmente tanto nas artes gregas como romanas. Eis um resumo do que lemos até agora:

As Cárites - quem eram na mitologia grega

As Cárites na mitologia grega - um resumo

  • As Cárites eram filhas do deus grego Zeus e da ninfa do mar Eurínome, embora outras fontes nomeiem Hera, Hélio e os pais das deusas.
  • Embora a maior parte das fontes creia que as Cárites são três, outras pensam que eram mais de três.
  • As deusas inspiravam beleza, fascínio, natureza, fertilidade, criatividade e benevolência e encontravam-se na maior parte na companhia de Afrodite, deusa da fertilidade.
  • O papel das deusas na mitologia da Grécia era servir as outras divindades entretendo-as ou ajudando-as a vestir-se e parecer mais atraentes.
  • Inicialmente as deusas eram retratadas completamente vestidas, mas a partir do século III a.C., sobretudo após as descrições dos poetas Eufórion e Calímaco, foram mostradas nuas.

Os romanos cunharam moedas que retratavam as deusas para celebrar o casamento entre o imperador Marco Aurélio e a imperatriz Faustina Menor. As Cárites apareceram em várias obras de arte romanas maiores, incluindo a célebre pintura Primavera de Sandro Botticelli.

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Por Mundo Mítico

Criado: 16 de fevereiro de 2024