Piankhi: o grande rei núbio que conquistou o Egipto
Piankhi (741–715 a.C.) foi o rei da antiga Núbia que iniciou a invasão do Egipto inferior e fundou finalmente a XXV dinastia do Egipto. Com o seu valor conquistou uma grande nação e se afirmou como seu senhor.
O seu sucesso é chamado também «dinastia etíope dos faraós». Foi uma época notável na história egípcia: um líder do interior do continente africano tomou o controlo da região superior e mais rica.
Antes dele o Egipto sofria já de disputas políticas internas causadas por governantes pouco fiáveis e irresponsáveis. Sucederam-se declínios em todo o país.
Pelo contrário, foi um tempo de sucesso supremo para os núbios, que durante anos tinham defendido o próprio país dos conquistadores egípcios. Após séculos de embates, a disputa resolveu-se a seu favor.
Quem era Piankhi?
Piankhi vinha de uma família real de Kerma, no Sudão. Os pais eram o rei Kasta e a rainha Pebatjma. Com um talento inato ao comando, mostrou cedo sinais de liderança na cidade natal. As consortes incluíam Khensa, Abar, Tabiry e Peksater, que lhe deram uma família numerosa. Entre os filhos figuram Shepenupet II, Taharqa, Qalhata, Arty, Naparaye, Takahatenamun, Tabekenamun, Har e Khaliut.
Apresentou-se com os nomes reais oficiais Usimare e Sneferre. Em religião adorava Amun, deus muito popular entre os núbios. Com fé sólida nos poderes espirituais de Amun, ordenou o restauro do Grande Templo de Amun em Jebel Barkal — construído na origem por Tutmés III.
Queria levar a termo o seu projecto principal: agradar ao deus Amun. Para tal encomendou grandes entalhadores, artesãos e escultores do Egipto para construir o templo dos seus sonhos. Isto figura entre as façanhas de Piankhi, descrito como conquistador do Egipto.
Piankhi conquistou o Egipto
O rei Piankhi era na origem soberano de Cuxe, região do Alto Nilo, hoje Sudão setentrional. Crê-se que sucedesse ao pai no governo de Cuxe em 741 a.C. O sonho ambicioso de conquistar o Egipto nasceu quando viu prosperar o rei Osorkon III do Egipto.
Viu frotas de naves carregadas de ouro para o Egipto, escravos e soldados prontos a combater ao comando do rei. Ouviu da chegada de pedras preciosas repostas no tesouro real. Face a este cenário, Piankhi reforçou com cuidado o exército e ideou um plano mestre para submeter o Egipto, o formidável inimigo.
Planeou meticulosamente o fim da avidez do rei egípcio e o alargamento do próprio território. Reuniu um exército forte, propôs uma campanha militar contra o Egipto orgulhoso e venceu combatendo sem descanso. Naquele cenário, a guerra era a única opção.
A invasão de Hermópolis
Ordenou ao exército que esperasse o momento certo. Quando se apresentou a ocasião, Piankhi invadiu a fortaleza de Hermópolis e iniciou a campanha. Naquela batalha submeteu o comandante egípcio Namlot, que, tomado pelo medo, implorou a liberdade como um escravo.
Após este ataque vitorioso seguiram-se triunfos noutras cidades até alcançarem a capital Mênfis. Para dar uma ideia: Mênfis era protegida por altas muralhas, a oeste e a leste. A gente soube do ataque demasiado tarde: Piankhi já estava no centro da cidade, em guerra com os soldados egípcios.
Tomou a capital com facilidade e ordenou logo o controlo do porto. Era algo que os habitantes de Mênfis tinham dado por garantido, ao ponto de os homens de Piankhi submeterem a cidade sem falhar.
Consciente da derrota iminente, Tefnakhte, comandante do exército egípcio, rendeu-se aos núbios, facilitando a conquista do país inteiro. Piankhi procedeu a Heliópolis e capturou logo o rei Osorkon, já pronto à derrota.
Encontrou-o sentado em silêncio na sua divisão, pronto a ser derrubado. O honorável rei rendeu-se sem resistência, e aquele gesto abriu a proclamação de uma nova era para o Egipto: o reinado de Piankhi como rei do Egipto.
O rei Piankhi do Egipto
Das humildes origens de rei da Núbia, outrora inimigo do Egipto, o rei Piankhi iniciou uma nova geração de líderes egípcios. Assegurou-se de que o Nilo fosse navegado por naves carregadas de ouro e pedras preciosas a esconder no tesouro real.
Subiu ao poder e construiu com cuidado o nome de poderoso conquistador do Egipto. Após ele os reis núbios do Egipto governaram a nação com maior dedicação a preservar a honra de conquistadores do antigo inimigo.
Atribuiu chefes em cada cidade do Egipto e assegurou ao povo desenvolver economia, governo e exército. Estabelecida a autoridade sobre o Egipto, Piankhi regressou a Napata, onde a sua gente celebrou a honra de ter derrotado os velhos inimigos. Os núbios tinham lutado longamente com os egípcios até a vitória chegar sob a guia de Piankhi.
O triunfo súbito de Piankhi provocou graves rixas entre os soberanos do Egipto. Inculparam-se uns aos outros, e o líder núbio aproveitou a ocasião para submeter outras regiões, como Tebas e o Egipto inferior. Venceu as campanhas com um exército forte, e todos os triunfos foram inscritos na famosa Estela da Vitória.
A estela de Piankhi
Para marcar a vitória, Piankhi ergueu uma enorme estela com uma longa inscrição das suas campanhas no Egipto. Escolheu Amun como deus e fez da estela o monumento pessoal.
Os historiadores modernos encontraram esta estela diferente daquelas de outros soberanos. Com amor pelo detalhe, Piankhi pediu aos escribas que enumerassem aventuras e triunfos, todos escritos na estela.
Para além de instituir novas regras, Piankhi estava também empenhado no seu amor pelos cavalos. Adorava-os tanto que fez decorar os que puxavam os carros reais. Os historiadores ficaram surpreendidos ao encontrar restos de cavalos na sua tumba.
Para além do cuidado dos cavalos, iniciou a adopção da cultura egípcia em Cuxe, como a construção de pirâmides e mausoléus para os reais núbios. Fez erguer uma grande pirâmide em Napata e construiu templos de influência egípcia na Núbia.
Que tipo de soberano era? Piankhi era um líder conservador. Concentrava-se em reforçar instituições em declínio no Egipto e em restaurar os antigos templos. Supervisionava em pessoa o restauro dos símbolos culturais egípcios.
O legado de Piankhi
A ascensão de Piankhi foi sem igual. A história descreve-o como formidável. Iniciou a campanha indignado pela opulência do Egipto face à escassez económica na Núbia. Não aceitava que houvesse tanta abundância no Egipto enquanto a sua terra natal permanecia em escravidão.
Planeou uma guerra santa contra o Egipto com soldados núbios valorosos dispostos a seguir a sua estratégia. Ordenou aos soldados que se santificassem antes da batalha. A lealdade ao deus Amun teve um papel decisivo nas campanhas: cada oração e sacrifício ia a Amun.
Iniciou a campanha no norte do Egipto até os triunfos em Heracleópolis, Hermópolis e Mênfis se tornarem conhecidos. Derrotou os chefes do Delta do Nilo e de Tebas antes de regressar a casa para sempre.
Não voltou mais ao Egipto desde então. Os historiadores concordam que o rei núbio pode ter reinado cerca de 31 anos.
Morreu por volta de 714 a.C. e foi sepultado em El Kurru, perto de Jebel Barkal. O corpo repousava num banco de pedra no centro de uma câmara. Foi o primeiro rei sepultado numa tumba com cavalos há mais de quinhentos anos.
Conclusão
Piankhi foi um líder valoroso da Núbia que planeou campanhas militares hábeis para conquistar o Egipto.
Eis os pontos-chave a recordar:
- Piankhi indignou-se ao ver luxo e afluência do Egipto e da família real.
- Em consequência preparou com empenho o exército para conquistar a nação.
- Com inteligência e determinação invadiu o Egipto e venceu. A vitória deu orgulho aos antigos escravos da Núbia.
- Foi um líder conservador e instituiu muitas regras no Egipto.
- Supervisionou o restauro de antigos templos em honra dos deuses antigos, entre os quais Amun.
- A vitória sem precedentes surpreendeu os egípcios: não esperavam que um antigo inimigo da Núbia conquistasse o Egipto com uma campanha silenciosa.
Foi realmente um acontecimento sem igual na história do Egipto: ver um antigo inimigo guiar a XXV dinastia.














