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O povo berbere: os nativos do Norte de África

O povo berbere habita o Norte de África há séculos e sobreviveu a anos de assimilação, perseguição e invasão.

Bivaque berbere

Embora a cultura berbere tenha começado a declinar durante as conquistas árabes do Norte de África na Idade Média, uma síntese da cultura árabe-berbere ainda está viva hoje em países como Marrocos e a Argélia.

Neste artigo exploraremos a rica história e cultura dos berberes do Norte de África.

Quem são os berberes?

A etnia berbere é classificada como os descendentes dos norafricanos que povoavam a região antes de os árabes a conquistarem. Hoje encontram-se comunidades berberes em Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egipto, Mali, Níger e Mauritânia.

As duas maiores populações berberes encontram-se na Argélia e em Marrocos. Grande parte da população descende dos berberes nestes dois países, mas apenas uma minoria se considera berbere amazigue. Estima-se que um quarto da população argelina e três quintos da população marroquina sejam berberes.

Os berberes falam predominantemente a língua amazigue (também chamada tamazight), que pertence à família linguística afro-asiática.

O nome Berbere deriva da palavra grega para Bárbaro, um nome dado a muitos povos exteriores à Grécia, incluindo as tribos germânicas e celtas da Europa. Bizantinos, gregos e romanos referiam-se todos aos povos do Norte de África como berberes.

Outros estudiosos sustentam que no século VII d.C. os árabes deram aos berberes originais o seu nome formal. Os soldados berberes contratados pelos árabes para a conquista da península ibérica receberam o nome de «Barbar», uma linhagem descendente de Noé nas escrituras religiosas.

Os árabes difundiram rapidamente o islão entre os berberes do Norte de África, e a religião tornou-se uma parte central de muitas das suas comunidades.

História dos berberes: a história antiga

Os berberes tradicionais habitaram o Magrebe da África noroeste pelo menos desde 10.000 a.C. Numerosas pinturas rupestres foram encontradas na Argélia e na Líbia e remontam a 6000 a.C. Estas tribos dependiam em grande parte da agricultura e da domesticação dos animais.

Desde 2000 a.C. em diante, as línguas berberes difundiram-se para oeste do vale do Nilo e, em 1000 a.C., as línguas berberes dominavam o Norte de África. Antes de os romanos tomarem o controlo da região existiam muitos estados independentes, entre os quais os númidas sob o rei Massinissa perto de Cartago, os Mauros na Mauritânia e os Gétulos.

História dos berberes: Cartago

Cartago, criada por colonos fenícios, aumentou gradualmente a própria influência na África setentrional central no curso do século IV a.C. e tornou-se a potência dominante não só do Norte de África, mas também a marinha dominante do Mediterrâneo ocidental.

O domínio de Cartago no Norte de África trouxe muitas duras realidades ao povo berbere. À medida que Cartago começava a controlar o ambiente socioeconómico da região, os berberes foram cada vez mais submetidos a um tratamento fraco como trabalhadores e foram forçados a pagar tributos excessivos a Cartago.

As tribos berberes da região viram os cartagineses como uma ameaça crescente, e irromperam numerosas revoltas contra o controlo cartaginês. Uma massiva rebelião de 200.000 berberes irrompeu em 396 a.C., mas foi em breve dissolvida por falta de organização.

Os berberes aceitaram a custo a presença cartaginesa na região, mas as duas culturas permaneceram em grande parte separadas, enquanto os berberes se tornavam as classes socioeconómicas inferiores da sociedade cartaginesa. Contudo, os berberes acabaram por mostrar a própria utilidade como guerreiros, e os exércitos cartagineses começaram a alinhar em batalha a cavalaria berbero-númida.

Embora os berberes fizessem cada vez mais presença no exército cartaginês, eram plenamente capazes de mudar de alinhamento segundo os próprios interesses. Quando Agátocles guiou tropas gregas da Sicília ao Cabo Bon para atacar Cartago, muitos guerreiros berberes sob Allymas se uniram à Grécia.

As tribos berberes tiveram um papel importante nas guerras púnicas, centradas numa luta de poder pelo controlo da região mediterrânica entre Roma e Cartago. Na Segunda Guerra Púnica, o rei Massinissa de Numídia alinhou-se com Cartago e guiou as suas forças berberes em muitas batalhas contra os aliados romanos, mas por fim passou para o lado de Roma nos últimos anos do conflito. Os berberes tiveram um papel significativo na batalha de Zama, que forçou Cartago a render-se e a dissolver o exército inteiro.

O rei Massinissa aproveitou o tratado de paz da Segunda Guerra Púnica, que estabelecia que Cartago devia dissolver o próprio exército e não envolver-se noutros conflitos militares.

O rei Massinissa começou a apoderar-se de terras cartaginesas, pois Cartago não só não se podia defender, mas qualquer tentativa de o fazer podia provocar uma declaração de guerra romana por violação do tratado de paz. Cartago apelou a Roma por ajuda, mas o Senado recusou enviar assistência militar ao seu antigo inimigo.

Roma viu a oportunidade numa aliança romano-berbere e começou a formar relações com muitas tribos berberes. Roma sabia que aliar-se com as tribos berberes do Norte de África, durante anos sujeitas ao domínio cartaginês, teria grandemente ajudado a destruir Cartago.

Apesar da dissolução do exército cartaginês inteiro após a Segunda Guerra Púnica, muitos membros do Senado romano procuraram destruir a cidade para lhe impedir de se recuperar e vingar-se no futuro.

Quando Massinissa enviou as suas forças a tomar a cidade cartaginesa de Oroscopa, os defensores da cidade repeliram o ataque. Roma declarou guerra a Cartago pouco depois, dando início à Terceira Guerra Púnica.

História dos berberes: a época romana

Artefactos berberes

Os reinos berberes da Mauritânia e da Numídia foram formalmente incorporados no Império romano no século II a.C., após Cartago ter sido destruída no fim da Terceira Guerra Púnica. Após o domínio cartaginês ter sido erradicado do Norte de África, a influência berbere na região cresceu notavelmente sob o controlo romano.

A Cirenaica, uma região berbere na actual Líbia oriental, tornou-se o centro mais importante do cristianismo no Norte de África. Também o reino de Mauretânia, situado no actual Marrocos e Argélia, floresceu como província romana neste período.

Os Garamantes da actual Líbia meridional emergiram como uma das sociedades agrárias mais importantes do continente africano. Apesar da sua posição no deserto do Sara, os Garamantes usaram extensos sistemas de irrigação para criar cidades florescentes e densamente povoadas. Muitos historiadores citam os Garamantes como a primeira grande sociedade urbana situada num deserto que não dependia de um grande sistema fluvial.

História dos berberes: a arabização do Norte de África

Antes das conquistas islâmicas da região, os mercadores berberes dominavam o Sara. O comércio de ouro e escravos em todo o Norte de África trouxe imensa prosperidade ao povo berbere.

Contudo, a conquista árabe-islâmica do Norte de África começou a substituir gradualmente o domínio berbere na região com a arabização. No século XI, os nómadas árabes começaram a dominar o deserto e muitas tribos berberes foram forçadas a refugiar-se nas periferias montanhosas da sociedade norafricana.

A preeminência do árabe escrito conduziu ao declínio da língua berbere amazigue escrita nativa. À medida que os árabes tomavam gradualmente o Norte de África aos berberes, as identidades berberes nativas se perdiam progressivamente e eram substituídas por significativas influências árabe-islâmicas.

Contudo, do século XI ao XIV, os berberes das tribos que abraçaram o islão conservador começaram a tomar o poder na região e contribuíram para uma mistura híbrida de culturas árabe e berbere difundida em todo o Norte de África.

História dos berberes: as dinastias berberes da Idade Média

A dinastia zirida foi a primeira dinastia berbere muçulmana a controlar o Norte de África, controlando tudo de Marrocos à Líbia ocidental no auge do seu poder. Os Ziridas subiram ao poder na região, primeiro nas zonas costeiras montanhosas da Argélia, e começaram estavelmente a estender o seu território em todo o Norte de África.

Após terem declarado a independência da dinastia fatímida do Cairo, tropas egípcias foram enviadas ao Norte de África, e uma guerra constante lançou a região no tumulto durante toda a metade do século XI. Apesar deste tumulto, os Ziridas conseguiram existir num estado enfraquecido como sociedade costeira, mas foram por fim destruídos pelos normandos sicilianos em 1148.

As dinastias almorávida e almóada surgiram no Magrebe entre o século XI e o XIII e tornar-se-iam os dois maiores impérios berberes do Norte de África. Ambas subiram ao poder como «protectoras do islão», criticando os predecessores por serem demasiado relaxados na adesão ao islão puro em todo o seu território.

A dinastia almorávida nasceu em grande parte de tribais berberes Sanhaja inspirados pelo sufismo e pelo islão maliquita a trazer uma forma mais pura da religião no Magrebe. Em 1040 os Almorávidas conquistaram a cidade de Marraquexe em Marrocos e fizeram dela a capital da dinastia.

Nos dois decénios seguintes, o exército almorávida expandiu-se estavelmente na região, controlando por fim Marrocos, Mauritânia e Argélia. Os exércitos almorávidas moveram-se também na Ibéria, mas foram forçados a renunciar a todos os territórios ibéricos em 1145 devido a rebeliões internas e vitórias cristãs.

A região gozou de grande prosperidade sob o controlo dos Almorávidas, enquanto Marraquexe se tornava o centro comercial dominante da região. A cidade tornou-se um lugar de destaque nas rotas comerciais saarianas e um centro da cultura islâmica berbere. Sob o controlo dos Almorávidas, a região de al-Andalus na península ibérica floresceu como a região mais importante da Europa muçulmana.

A dinastia almóada começou como movimento religioso no Atlas marroquino. Estes tribais berberes reuniram-se atrás de Ibn Tumart, que se proclamou o Mahdi divino e criticou os Almorávidas como hereges relativamente ao islão. Os Almóadas conquistaram com sucesso Marraquexe em 1147 e tomaram o território almorávida no Magrebe.

Em comparação com os Almorávidas, o regime almóada foi particularmente brutal para com os não muçulmanos e para com aqueles que consideravam ainda leais aos Almorávidas. Numerosos massacres e actos de perseguição foram cometidos em toda a região pelo regime almóada.

Os Almóadas fizeram também incursões na Ibéria. Mas, como os Almorávidas antes deles, foram forçados a retirar-se devido a distúrbios internos e vitórias cristãs. A dinastia almóada começou gradualmente a decair enquanto as rebeliões fragmentavam o império. A dinastia almóada chegou por fim ao fim em 1269 com a perda de Marraquexe a favor dos Merínidas Zenata.

As dinastias merínida, háfsida, ziyânida e wattásida dividiram o território no Norte de África após a queda dos Almóadas. Isto contribuiu grandemente para a sobrevivência da cultura berbere na região. Estas dinastias berberes duraram até ao século XVI, quando o Império otomano tomou grande parte do Norte de África.

Os berberes no início do século XX

Aldeia berbere

No início do século XX, as comunidades berberes eram em grande parte enclaves isolados espalhados pelo Norte de África. As comunidades berberes marroquinas situavam-se nas cadeias do Rife, do Atlas, do Anti-Atlas e do Sara. Comunidades berberes povoavam também o vale do Drâa no Marrocos meridional. Na Argélia oriental, as comunidades situavam-se perto dos montes Aurès e da Cabilia.

Na Tripolitânia e na Tunísia, as comunidades berberes situavam-se nas regiões colinares do planalto do Nafusa e na ilha mediterrânica de Gerba. Comunidades berberes situavam-se extensivamente no vale do M’zab no Sara setentrional e no Sara meridional e central nos montes Ahaggar.

Estes berberes eram em grande parte agricultores e pastores. Muitas destas comunidades se especializavam em artesanato e outros bens comerciais, incluindo cerâmica, tecelagem e trabalho do couro. Muitos eram também nómadas que percorriam as redes comerciais do Sara.

No início do século XX, os berberes viviam predominantemente em pobreza em grutas, tendas e casas de telhado inclinado. As mulheres berberes reuniam-se nas fontes comunitárias ou nos túmulos de um santo, enquanto os homens iam às mesquitas locais para a oração quotidiana. Muitas comunidades berberes davam um enorme poder às mulheres, pois frequentemente eram elas a escolher o parceiro para o casamento.

Contudo, no curso da urbanização da região durante o século XX, o povo berbere se deslocou cada vez mais dos enclaves montanhosos para as cidades de toda a África noroeste em busca de oportunidades económicas. Isto trouxe muitas formas de cultura popular na sociedade berbere, enquanto os berberes regressavam às comunidades nativas dos centros urbanos.

Quando os países do Norte de África obtiveram a independência no curso do século XX, o nacionalismo berbere se manifestou em muitos movimentos de independência africanos. Enquanto muitos destes governos recém-independentes esperavam unir o povo sob a unidade nacional, muitos berberes procuraram separar a própria identidade cultural dos Estados árabes. Por este motivo, muitos novos governos se sentiram ameaçados pelos berberes e fizeram esforços concertados para os manter na periferia da sociedade árabe.

Os franceses usaram os berberes para depor o sultão de Marrocos em 1953, e alguns oficiais berberes foram envolvidos numa conspiração de assassinato contra o rei em 1971. Isto induziu tanto o governo marroquino como o argelino a reprimir o ensino da cultura berbere durante todo o final do século XX.

Em 1980 a decisão do governo argelino de anular uma conferência de poesia berbere na Universidade de Tizi-Ouzou realizada pelo escritor berbere Mouloud Mammeri deu início à «Primavera berbere», em que artistas e músicos berberes guiaram massivas manifestações. Em Abril, a Universidade de Tizi-Ouzou foi ocupada pelos manifestantes.

O exército argelino foi chamado e prendeu centenas de estudantes pelas protestos. Isto provocou ulteriores distúrbios entre os estudantes universitários em toda a região cabila, que continuaram até à libertação oficial dos manifestantes detidos em Junho.

Os berberes líbios tiveram um papel decisivo na guerra civil líbia de 2011, combatendo uma guerra de guerrilha contra os lealistas de Kadhafi nos montes Nafusa. Kadhafi tinha historicamente condenado e perseguido a população berbere do país, empenhando-se a apagar os vestígios da cultura amazigue da sociedade líbia. Isto incluía a re-nomeação de pontos de referência nos mapas oficiais que levavam nomes na língua berbere.

Renascimento da cultura berbere

Nos últimos anos muitos destes governos, especialmente na África noroeste, começaram a abraçar a sociedade berbere. A língua nativa amazigue, ou tamazight, tem sido cada vez mais estudada na Argélia e em Marrocos.

Enquanto os berberes argelinos não conseguiram criar uma presença forte no sistema democrático do país, os berberes em Marrocos viram maiores progressos em criar uma presença na sociedade norafricana moderna. O Instituto real da cultura amazigue foi fundado em 2001 na capital Rabat, onde contribui para a difusão da cultura berbere em todo o país.

O tamazight é ensinado em muitas escolas marroquinas e, em 2011, o tamazight foi reconhecido como língua oficial pelo governo marroquino. A cultura berbere consolidou o próprio lugar na indústria turística marroquina, especialmente no Atlas.

Conclusão

Povo berbere em Erg Chebbi

Tratámos muitos aspectos do povo berbere e da sua fascinante cultura.

Revejamos as ideias principais:

  • Os berberes compreendem os descendentes dos norafricanos antes das conquistas árabes do século VII ao XI.
  • Os berberes falaram historicamente a língua amazigue, mas esta foi gradualmente substituída pela língua árabe.
  • Durante a Idade Média, os berberes foram cada vez mais empurrados para as regiões montanhosas na periferia da sociedade norafricana.
  • Os berberes adoptaram cada vez mais o islão como religião, e muitas dinastias berberes islâmicas subiram ao poder na região. As dinastias berberes mais importantes foram os Almóadas e os Almorávidas, que procuraram ambos difundir o islão conservador em toda a África noroeste.
  • A cultura berbere teve um reavivamento em todo o Magrebe no século XXI, especialmente em Marrocos.

Embora alguns ainda possam ver os berberes como marginalizados da sociedade árabe, a cultura berbere de hoje ainda está viva e vegeta em Marrocos e noutros lugares no Norte de África.

Criado: 11 de janeiro de 2022

Modificado: 18 de março de 2024