Conheça Dumuzid: o antigo deus mesopotâmico que morreu e ressuscitou
Dumuzid, o deus dos pastores e marido de Inanna, foi venerado por Sumérios, Acádios, Babilónios e Assírios milhares de anos antes de serem escritos os primeiros livros da Bíblia hebraica. Dumuzid era conhecido sob vários nomes e o seu culto sobreviveu bem na era cristã pela sua popularidade entre a população pastoral da região.
A história de Dumuzid é longa e complexa e cobre vários milénios. Neste artigo tentaremos deslindar o complexo mistério do papel de Dumuzid na mitologia dos povos do Próximo Oriente antigo.
Quem é Dumuzid?
Dumuzid é um dos muitos deuses do panteão mesopotâmico. Tornou-se conhecido como patrono dos pastores e marido de Inanna, a Rainha do Céu, a deusa mais importante da Babilónia e da Assíria. No seu aspeto mais relevante era venerado como deus da fertilidade, comumente ligado a força e vigor masculinos.
Inanna escolhe um pastor em vez de um lavrador
Dumuzid aparece num antigo poema sumério como um pastor que corteja a deusa Inanna. Não é porém o seu único pretendente. Um lavrador de nome Enkimdu compete com ele pelo seu favor mas a deusa no fim escolhe Dumuzid.
O seu casamento e amor subsequentes permaneceram um tópico popular de poemas de amor na antiga Mesopotâmia. Muitos destes tinham uma componente erótica, uma vez que descrevem com frequência o consumar do seu casamento.
Dumuzid era conhecido com uma variedade de nomes em todo o Próximo Oriente antigo
O nome sumério Dumuzid é talvez uma transliteração do antigo babilónico Du’uzu. Na Babilónia e na Assíria era conhecido como Dumuzi. Em hebraico e árabe prevaleceu o nome Tammuz. O seu nome pode ser traduzido como «o jovem bom», refletindo o seu papel de deus dos pastores e da fertilidade.
Dumuzi o Pastor parece ter sido o seu título oficial atestado em alguns textos antigos. Muito mais tarde veio a ser associado ao Adónis heleno-sírio, venerado em todo o mundo helenístico.
Dumuzid era um mortal que se tornou divino através do seu amor por Inanna?
A descoberta de uma lista de reis sumérios que menciona dois monarcas de nome Dumuzi impeliu os estudiosos a sugerir uma intrigante possibilidade de que Dumuzid pudesse ter sido um homem mortal que alcançou a divindade através da sua relação com Inanna.
Os dois soberanos mencionados na lista de reis sumérios são Dumuzid de Bad-Tibira, o pastor e o quinto Rei antes do dilúvio, e Dumuzid de Kua, o pescador.
Inanna e Dumuzid: uma relação turbulenta
Com base no que sabemos dos textos antigos, Inanna e Dumuzid tinham uma relação complexa e frequentemente turbulenta que pode ter sido uma alegoria das relações matrimoniais igualmente complicadas entre os mortais.
Inanna, a deusa mais amada da Mesopotâmia
Nos mitos sumérios Inanna aparece como deusa do amor sexual, da guerra e da justiça. Pode ter sido a filha de Ea/Enki, uma divindade da água. Embora tivesse templos em muitas cidades sumérias, o seu principal centro cultural era em Uruk.
No período paleo-babilónico Inanna tornou-se sinónimo de Ishtar, anteriormente uma divindade independente. Na mitologia cananeia Ishtar/Inanna era conhecida como Astarte. O seu culto ganhou ampla proeminência mas era mais forte na Babilónia. Juntamente com Marduk, Tammuz e Ishtar eram as divindades principais do Império neo-babilónico.
Quais são os símbolos de Inanna e Tammuz?
O símbolo mais comumente associado a Inanna era a estrela de oito pontas. Nos artefactos antigos é frequentemente mostrada ao lado do disco solar, o símbolo do irmão Shamash. A estrela de oito pontas era uma clara associação com os céus, e especificamente com o planeta Vénus.
Na Babilónia Ishtar era também associada aos leões. A porta principal da Babilónia, a Porta de Ishtar, era ricamente decorada com tijolos azuis vitrificados, figurando leões como símbolo de poder e autoridade.
Em contraste com os símbolos omnipresentes do poder de Ishtar, o símbolo de Tammuz é mais difícil de encontrar. Uma vez que simbolizava a fertilidade, Tammuz era frequentemente representado como uma massa de vegetais e uma variedade de outros alimentos.
A descida de Inanna ao submundo e a morte de Dumuzid
O texto encontrado em tabuinhas sumérias e acádicas conta a história da descida de Inanna ao submundo, governado pela irmã Ereshkigal. Os seus motivos para a perigosa descida permanecem pouco claros. Desdenha o aviso da irmã de regressar ao mundo dos vivos e passa as sete portas mas deve deixar atrás de si as suas roupas.
Tornada assim indefesa, a intrépida Inanna entra no submundo e senta-se no trono da irmã. Pela sua transgressão, os Anunnaki do submundo transformaram-na num cadáver sem vida, mas foi no fim trazida de volta à vida através da intervenção de Enki.
Dumuzid é entregue nas mãos dos demónios
Inanna encontrou-se incapaz de fugir do submundo, vinculada a permanecer aí até outro espírito tomar o seu lugar. Perseguida por demónios mandados pela irmã, Inanna varreu o mundo em busca de alguém que tomasse o seu lugar no submundo.
Mostra-se não disposta a escolher entre amigos e servos que ainda a choram mas enfurece-se quando descobre Dumuzid sentado no seu trono, ricamente vestido e na companhia de numerosas escravas. Para o punir pela infidelidade, entrega-o a uma horda de demónios que o arrastam para baixo no submundo.
Ao marido de Inanna é permitido regressar à vida
Embora existam várias versões do mito, a maioria delas concorda que a descida de Inanna ao submundo resultou na morte do marido. Com o tempo arrepende-se das suas ações e reza à irmã Ereshkigal para lhe permitir regressar à vida uma vez por ano.
O mito que envolve uma descida ao submundo e a subsequente ressurreição tanto de Inanna como de Dumuzid deixou um impacto duradouro na religião do Próximo Oriente antigo.
Referências a Tammuz encontram-se na Bíblia
Provas diretas do amplo culto de Tammuz no Próximo Oriente antigo encontram-se na Bíblia. Ezequiel 8:14 menciona como a morte de Tammuz era lamentada até nos templos hebraicos:
«Então conduziu-me à porta da casa do Senhor que estava para norte; e eis que ali se sentavam mulheres que choravam Tammuz. Então me disse: “Viste isto, ó filho do homem? Volta-te ainda, e verás abominações maiores do que estas.”»
Mais alusões a Tammuz e à sua consorte Ishtar encontram-se em vários outros livros da Bíblia. Tammuz na Bíblia é sempre implicado como um ídolo, ou um demónio, cujo culto é de detestar.
O culto de Tammuz durante a Antiguidade clássica
A civilização mesopotâmica é amplamente considerada terminada com a conquista persa da Babilónia em 539 a.C. Não significou porém o fim da religião mesopotâmica. Os cultos das antigas divindades sumérias e babilónicas continuaram a ser praticados em todo o Próximo Oriente.
Ishtar veio assim a ser identificada como a deusa cananeia Astarte. Tinha equivalentes no panteão greco-romano — Atena e Afrodite e Vénus e Minerva, respetivamente. Do mesmo modo, o deus da fertilidade babilónico Tammuz pode ter sido uma inspiração para Adónis, o amante de Afrodite.
Atena e Adónis: os equivalentes helenísticos de Ishtar e Tammuz
Como resultado da conquista do Império persa por Alexandre Magno no século IV a.C., grande parte do Próximo Oriente antigo foi repartida pelos seus generais, chamados os Diádocos. Estabeleceram estados helenísticos independentes do Egito ao atual Afeganistão.
A fusão do helenismo com religiões mesopotâmicas e levantinas muito mais antigas inaugurou uma nova era de sincretismo religioso. O mito grego de Afrodite e do seu amante mortal Adónis, que se pensa derivar de um poema da famosa poetisa Safo de Lesbos, traz uma semelhança surpreendente com a história de Ishtar e Tammuz.
A ascensão do cristianismo e o declínio do politeísmo no Próximo Oriente
O cristianismo substituiu o politeísmo como religião dominante do Próximo Oriente já a meados-finais do século III d.C. O culto de Ishtar e Tammuz mostrou uma incrível resiliência, mesmo no período em que os cultos de outros deuses antigos desapareciam.
Elementos do culto foram tecidos em mitos e contos cristãos que hauriram de tradições pagãs anteriores. A morte de Tammuz era comemorada em rituais e festivais em partes da Alta Mesopotâmia até à era moderna. O mês de julho em árabe iraquiano é Tammuz.
O impacto do mito mesopotâmico nas crenças cristãs
A partir do século XIX, historiadores, estudiosos de religião e antropólogos notaram um laço entre o mito da morte e ressurreição de Tammuz e a ressurreição de Jesus.
O antropólogo escocês James George cunhou o termo «deus que morre e ressuscita» para descrever um arquétipo encontrado em muitas religiões do mundo. O estudioso americano de religião Paul Carus escreveu:
«O antigo Tammuz é um dos protótipos mais importantes de Cristo. É um deus-homem, uma encarnação da divindade que nasce como ser humano, morre no curso do tempo e desperta de novo para a vida.»
Ressurreição, um motivo religioso comum, ou um milagre?
O conceito de redenção do homem através da ressurreição de uma figura divina permanece um dos marcos do cristianismo. Como Jesus, Tammuz morre e subsequentemente ressuscita.
Podem traçar-se paralelos com as outras divindades antigas cridas ter triunfado sobre a morte, como Osíris, Adónis, Átis e Dioniso. Em alternativa, pode ser visto como prova da incrível tenacidade da crença humana na vida eterna.
Conclusão
O deus Tammuz era venerado em todo o Próximo Oriente antigo. Originara-se como divindade suméria, marido de Inanna, a deusa do sexo e da fertilidade, depois conhecida como Ishtar. Os mitos sumérios e babilónicos afirmam que Tammuz desceu ao submundo, morreu e foi trazido de volta à vida. Tammuz e Ishtar estavam entre os deuses mais amados da antiga Mesopotâmia. Eis porque:
- Como casal divino estavam associados à fertilidade e à renovação da vida. A sua relação turbulenta tornava-os também relacionáveis às pessoas comuns.
- Tammuz/Dumuzid era o deus dos pastores, popular entre os povos pastorais da Alta Mesopotâmia e das regiões ásperas do Levante.
- O seu culto sobreviveu na era moderna e foi tecido em mitos e contos cristãos.
O mito da morte e ressurreição de Tammuz marcou uma fase importante no desenvolvimento das crenças religiosas do Próximo Oriente antigo que moldou de forma tão decisiva o mundo moderno.













