Violência na Eneida: as instâncias de conflito no poema épico
A violência na Eneida explora os temas de conquista e derrota, glória e infâmia, que marcaram a fundação do Império romano. O poema retrata as façanhas de Eneias, cujos actos heróicos conduziram à fundação de Roma, que mais tarde se tornou um império sob Júlio César.
Embora o poema esteja repleto de violência, a brutalidade produz poucos ou nenhuns resultados duradouros — um espelho da sociedade actual. Descubra a violência na Eneida de Virgílio e como influenciou pessoas e civilizações.
O que é a violência na Eneida?
A violência na Eneida é a causa de guerra e destruição no poema épico e das perdas devastadoras que se seguem. Explora as razões frívolas por que as guerras começaram no poema e como afectaram as personagens envolvidas no conflito.
A violência na Eneida: Livro 1
Eneias e a sua frota viajavam em busca de uma segunda pátria quando ventos violentos enviados por Éolo os atacaram. Antes disso, Éolo tinha sido subornado por Juno, que odiava Eneias e a sua frota.
Em primeiro lugar, Eneias era troiano, e Juno odiava os troianos porque o seu príncipe Páris escolheu Afrodite como a mais bela entre as deusas. Em segundo lugar, fora profetizado que Eneias destruiria a cidade preferida de Juno, Cartago.
Como se não bastasse, a filha de Juno, Hebe, fora substituída como copeira de Júpiter pelo príncipe troiano Ganimedes. Todas estas questões ferviam em Juno, e ela conspirava com Éolo, o rei dos Ventos, para destruir a frota de Eneias.
Éolo sopra os seus ventos mais ferozes, mas Neptuno, o deus do Mar, intervém e acalma as águas. Embora Neptuno não ame os troianos, interrompe os planos de Éolo e de Juno porque sente que estão a invadir o seu território.
Assim, desde o 1.º Livro ou capítulo, o poema regista violência entre os deuses e o homem — Juno e Éolo contra Eneias. Além disso, há violência entre os deuses: Juno e Éolo contra Neptuno.
Contudo, a violência é inútil, pois os esforços de Juno para destruir Eneias e as suas naves são frustrados. Eneias consegue resistir à tempestade e encontrar abrigo ao largo das costas de África, onde encoraja os seus homens a não perderem ânimo e a continuarem a lutar com ele. Constroem outra frota de naves e zarparam para continuar as suas viagens.
A violência no início do poema
O resumo da Eneida começa com a destruição de Troia às mãos dos aqueus, e retrata o herói épico Eneias a fugir do massacre, levando consigo o pai Anquises. Em seguida narra como os seus concidadãos combateram valorosamente, sabendo que já tinham perdido.
Conta como os gregos ofereceram um cavalo de madeira aos troianos, mas, sem o saberem os troianos, os gregos tinham escondido os seus homens no cavalo. Os gregos fingiram depois renunciar à guerra e zarpar.
Todavia, um sacerdote troiano, Laocoonte, viu através do estratagema dos gregos e avisou os troianos para não levarem o cavalo de madeira para a cidade. Infelizmente, os seus avisos caíram em saco roto e, para convencer o povo, lançou uma lança contra o cavalo.
Tristemente, os deuses enviaram duas enormes serpentes marinhas para matar Laocoonte e os seus filhos. Tragicicamente, o povo de Troia interpretou a morte trágica de Laocoonte como sinal de que ele mentia. Assim levaram o cavalo de madeira para a cidade.
Uma vez caída a noite e os troianos profundamente adormecidos, os guerreiros gregos sairam do cavalo e abriram as portas aos camaradas que regressaram. Os guerreiros gregos saquearam a cidade, matando os troianos em massa e queimando Troia até aos alicerces.
Felizmente para Eneias, Heitor, morto em batalha, apareceu-lhe em sonho e avisou-o para fugir de Troia com a família. Pelo caminho, apercebeu-se de ter deixado a esposa para trás e voltou por ela, só para encontrar o seu fantasma — sinal de que ela morrera.
Efeitos da violência na Eneida
A violência acalma-se enquanto lemos os numerosos erros de Eneias após o seu encontro no mar. Este capítulo conta os efeitos da violência quando Eneias encontra Andrómaca, a viúva de Heitor. A história de Andrómaca recorda a todos que, embora os heróis de guerra possam receber honra e glória, os seus parentes e descendentes suportam o peso da sua ausência. Heitor morreu a defender a cidade de Troia e foi honrado como o maior guerreiro da história troiana.
Contudo, a sua viúva Andrómaca continuou a sentir a sua ausência e a chorar a sua morte. Andrómaca perdeu também o filho Astíanax durante a guerra, e a sua dor não podia ser contida. Perdeu a família através do conflito em Troia, e nada neste mundo podia aplacar ou substituir a perda que sentia. Virgílio transmite a ideia de que os confrontos são violentos e têm efeitos psicológicos, emocionais, físicos e financeiros indizíveis sobre os sobreviventes.
Eneias e os seus homens descobrem também o corpo morto de Polidoro, um príncipe de Troia, e são movidos a dor. Os restos de Polidoro recordam-lhes os guerreiros troianos que perderam a vida em defesa de Troia. Pintam também o quadro horrendo do horror da guerra e da razão por que esta deve ser evitada a todo o custo, especialmente dada a causa frívola da guerra de Troia. Os efeitos da violência podem ser devastadores também para os guerreiros que nela participam, como encontramos no Livro 3 da Eneida.
O destino de Dido e outros actos violentos
Dido, a rainha de Cartago, suicidou-se esfaqueando-se com a espada de Eneias e morrendo numa pira funerária. Nesta parte assistimos a uma ligeira mudança da violência de guerras e conflitos para a violência perpetrada sobre si própria.
Dido matou-se porque Eneias não podia retribuir o seu amor sacrificial por ele. Deu tudo na relação que construiu com o herói épico, mas Eneias colocou a sua missão de fundar Roma acima de Dido.
Sem o saber Dido, era apenas um instrumento que Juno usou para impedir Eneias de cumprir o seu destino de fundar Roma. Contudo, Júpiter envia Mercúrio, o deus das mensagens e da comunicação, a recordar a Eneias a sua missão.
Não obstante, Mercúrio aconselha-o depois a partir no coração da noite para evitar as súplicas e as lágrimas de Dido. Eneias obedece e espera até todos estarem adormecidos, e escapa de Cartago; quando Dido o descobre no dia seguinte, já se tinha matado.
O massacre no Lácio
Todavia, regressamos aos actos destrutivos da guerra quando Eneias chega ao Lácio e se casa com a princesa Lavínia. A princesa fora anteriormente prometida ao líder do povo rútilo, Turno, mas o pai dela, o rei Latino, mudou de ideia e deu-a a Eneias.
Por outro lado, Juno, que sempre odiou Eneias, faz com que Alecto, uma das Fúrias, incite a mãe de Lavínia a obstruir o casamento. A mãe de Lavínia, Amata, esconde a filha nos bosques e empurra as mulheres do Lácio a instigar uma guerra entre Eneias e Turno.
Alecto faz também com que Ascânio fira o veado sagrado de Sílvia, a filha de Tírreo. Isso desencadeou outra guerra desastrosa que destrói várias vidas e propriedades no Lácio. A Eneida termina com mais violência, enquanto guerreiros notáveis como Palante, Camila, Arrunte e Lauso perdem a vida. Eneias confronta-se depois com Turno, quando concordam que um combate singular deve pôr fim a todas as hostilidades.
Também os deuses tomam partido e tentam influenciar o desfecho do duelo, mas Eneias vence. A rainha Amata suicida-se também, enforcando-se após saber que Eneias matou Turno no duelo. De novo, encontramos os efeitos destrutivos da guerra, enquanto o povo rútilo perde o seu campeão reverenciado e o rei Latino perde a amada esposa.
Conclusão
Até agora discutimos as várias instâncias de conflito na Eneida e os seus efeitos catastróficos sobre os guerreiros e os seus parentes. Eis um resumo dos pontos de tudo o que este artigo cobriu:
- A Eneida é um poema épico repleto de várias formas de violência, incluindo o suicídio, do princípio ao fim.
- Eneias narra como Troia caiu às mãos dos gregos e como teve de fugir com a família da cidade, só para se aperceber de ter deixado a esposa para trás.
- Encontra a viúva Andrómaca, a esposa de Heitor, que ainda chora a perda da família, e aprendemos como a guerra atinge os parentes dos guerreiros.
- O encontro de Eneias com Dido introduz-nos a outra forma de violência, o suicídio, que Dido comete após saber que o marido Eneias a abandonou.
- A Eneida termina numa guerra quando o herói épico e Turno se confrontam num duelo depois de a mão da princesa Lavínia ser dada em casamento a Eneias em vez de a Turno, como prometido.
Embora a violência no poema épico seja um meio de conquista e sobrevivência, danifica o espírito tanto do vencedor como do vencido, enquanto ambos sofrem perdas terríveis.












