Assíria: História moderna e antiga
Com os seus humildes inícios como uma pequena cidade-estado mesopotâmica, a Assíria tornou-se por fim um dos primeiros grandes impérios do Médio Oriente.
No auge do poder, o exército assírio era a mais formidável força militar do Médio Oriente, e cientistas, artistas e escritores floresceram nas cidades assírias.
Continue a ler para conhecer a Assíria e a sua ascensão ao poder no Médio Oriente.
Onde se situava a Assíria?
Situada na Mesopotâmia setentrional, a Assíria abrangia principalmente o actual Iraque e a Turquia sudeste durante grande parte da vida do império. Contudo, no auge do poder estendia-se do Egipto ao Irão ocidental.
As raízes do império afundavam-se na antiga cidade de Ashur, na margem ocidental do rio Tigre. Crê-se que a cidade remonta ao século XXVI a.C. Os sumérios controlaram-na durante muitos séculos, mas ela obteve por fim a independência como cidade-estado pouco antes do segundo milénio a.C.
Antigo Império assírio
O Período assírio antigo (2025-1750 a.C.) viu a Assíria tornar-se a potência dominante da Mesopotâmia setentrional, expandindo o seu território na Anatólia, Levante e Irão noroeste.
No início do II milénio a.C., a cidade de Ashur não era uma formidável potência militar. Era, contudo, um centro comercial central da região graças à sua posição privilegiada na margem do Tigre. A cidade comerciava amplamente com mercadores da Anatólia, Elam e Babilónia e tornou-se gradualmente muito rica. O rei Shamshi-Adad, um amorreu, subiu ao poder como soberano da região e fez de Ashur a sua base operativa. Expandiu o território por todo o Iraque setentrional e o Levante, tanto que muitos o consideram o fundador do Império assírio. Contudo, pouco depois da sua morte, o seu território passou a fazer parte do Império babilónico sob o rei Hamurabi.
Médio Império assírio
O Período assírio médio (1365-1020 a.C.) viu os assírios tornarem-se a força militar mais dominante do mundo conhecido, estendendo significativamente o território e derrotando muitos rivais regionais.
No Período assírio médio, o reino de Mitanni governava sobre a Assíria, que funcionava como cidade vassala do reino. Os hititas destruíram o reino de Mitanni em 1365 a.C., criando um enorme vazio de poder.
O fim do domínio mitânico permitiu à Assíria tornar-se uma potência dominante na região. Os assírios agiram rapidamente lançando uma ofensiva que conquistou com sucesso o antigo território mitânico. Tukulti-Ninurta I subiu ao poder em 1244 a.C. e infligiu um golpe fatal aos hititas na batalha de Nihriya, iniciando um rápido declínio da influência hitita na região.
Quando a Babilónia começou a lançar ofensivas em território assírio, Tukulti-Ninurta respondeu saqueando a cidade de Babilónia e destruindo muitos dos seus sítios e monumentos mais sagrados. Esta resposta revelou-se um grave erro para o rei, pois a opinião pública assíria indignou-se com a destruição dos lugares santos de Babilónia.
Tukulti-Ninurta foi assassinado pouco depois da destruição de Babilónia, muito provavelmente por membros da sua própria família. Após o assassinato, a Assíria entrou em estagnação, sem perder nem ganhar mais território.
Tiglate-Pileser I tornou-se rei em 1114 a.C. e trouxe significativa expansão e riqueza ao império. Lançou-se imediatamente na conquista militar e estendeu o reino até à costa mediterrânica do Levante. Esta expansão territorial deu ao império imensas riquezas que foram levadas ao palácio real.
Tiglate melhorou notavelmente a cidade de Ashur, construindo de tudo, de grandes palácios a parques públicos para a população cidadã. Fundou uma biblioteca na cidade que recolhia tábuas e textos de toda a região.
Após a morte de Tiglate, o império entrou num rápido declínio enquanto os arameus começavam a tomar o território assírio no Levante e as cidades de Babilónia e Mari tentavam obter a independência do reino.
Ataques contínuos de rivais vizinhos, rebeliões internas e uma fraca liderança enfraqueceram enormemente o império. No primeiro milénio a.C., o império consistia apenas numa pequena área no Tigre.
Império neoassírio
O Período neoassírio (911-605 a.C.) viu a Assíria tornar-se o maior império do mundo. Ashur-dan II subiu ao poder em 934 a.C. e imediatamente expandiu o território assírio a noroeste e a leste. Esta acção reabriu muitas redes comerciais vitais para o império e revitalizou a economia assíria.
Ashur-dan concentrou grande parte da sua administração em maximizar a eficiência do seu território. Reassentou agricultores para tornar mais eficiente a produção agrícola em todo o império, reconstruiu infra-estruturas danificadas ou em decadência e melhorou notavelmente o exército.
O filho de Ashur-dan II, Adad-nirari II, subiu ao poder em 911 a.C. e usou o exército assírio grandemente melhorado para continuar a luta contra arameus e babilónios. Adad-nirari conquistou a cidade de Babilónia, mas em vez de a destruir estabeleceu uma aliança com a cidade, que duraria 80 anos.
No século IX a.C., o exército assírio tornara-se um dos exércitos mais formidáveis do Médio Oriente. O exército assírio foi a primeira força militar da região a usar armas de ferro, em contraposição às armas de bronze usadas pela maior parte dos adversários.
A componente mais poderosa do exército assírio era o uso dos arqueiros, empregados estrategicamente para cobrir os ataques da infantaria.
Os assírios exceliam sobretudo no cerco das cidades e dispunham de unidades especializadas de engenheiros que destruíam as muralhas, construíam rampas para a infantaria e usavam escadas para ultrapassar as defesas. Usavam também carros de guerra, empregados para abrir brechas nas linhas inimigas.
O neto de Adad-nirari II, Ashurnasirpal II, subiu ao poder em 883 a.C. Em 870 a.C. conduziu o exército assírio a oeste e tomou a cidade de Carquemis. Depois conduziu o exército até à costa mediterrânica, trazendo muitas das cidades fenícias costeiras sob o controlo assírio.
Esta campanha deu ao império grande riqueza, que Ashurnasirpal usou para criar uma nova capital para o império chamada Kalhu. A pequena povoação foi transformada numa grande cidade com numerosos templos, uma vasta área residencial e um elaborado sistema de esgotos.
O filho de Ashurnasirpal, Salmanasar II, subiu ao poder em 858 a.C. e conduziu imediatamente o exército na região montanhosa da Assíria setentrional. Primeiro destruiu a cidade de Eridu, cobrou tributos dos assentamentos vizinhos e depois dirigiu-se para o reino de Nairi.
Em vez de se submeterem aos invasores, o povo de Nairi decidiu queimar as próprias cidades até aos alicerces. Depois fugiu para as montanhas. Os Nairi em fuga foram perseguidos e massacrados pelos assírios.
Em 853 a.C., muitos soberanos de toda a região mediterrânica levantaram-se contra o domínio assírio mas foram derrotados. No fim do reinado de Salmanasar, o território do império estendia-se da costa mediterrânica à cidade de Uruk no actual Iraque.
Esta colossal quantidade de território tornou necessária uma mudança na estrutura do governo assírio, que gradualmente começou a descentralizar-se. O poder do rei começou a enfraquecer e os soberanos regionais do império ascenderam na hierarquia do poder. Irrompeu uma guerra civil entre os filhos de Salmanasar, Ashu-da’in-aplu e Shamshi-Ramman, pelo controlo do trono. Shamshi-Ramman derrotou as forças do irmão e tornou-se rei do império, rebaptizando-se Shamshi-Adad V.
Após muitos anos de estagnação, Tiglate-Pileser III tornou-se rei em 745 a.C. e reinvigorou o império. Tiglate-Pileser implementou reformas massivas em todo o governo assírio. Restabeleceu grande parte do poder absoluto do rei e criou um sistema em que cada província do império forneceria uma certa quota de tropas ao exército assírio.
Durante as suas conquistas militares, concentrou-se em consolidar o território assírio na costa mediterrânica e deportou muitas populações civis arameias, substituindo-as por assírios.
Estes povos deportados foram enviados por todo o império a trabalhar como mão-de-obra onde quer que fosse necessário. Esperava que isto enfraquecesse a sociedade arameia e prevenisse qualquer futura resistência militar nas regiões conquistadas.
Embora reforçasse o seu poder absoluto, Tiglate-Pileser geralmente concedia aos reis vassalos regionais uma relativa autonomia desde que seguissem as suas ordens e pagassem os devidos tributos ao império. Sargão II subiu ao trono em 721 a.C. com o objectivo de expandir ainda mais o império derrotando os reinos que circundavam o território imperial. Derrotou o exército de Urartu em 714 a.C. e reconquistou a Babilónia, que se tornara recentemente independente. Construiu a capital de Dur-Sharrukin, embora o seu sucessor viesse a abandonar a cidade.
Sargão II foi morto em batalha em Tabal, na Anatólia, em 705 a.C. O filho de Sargão, Senaqueribe, tomou o poder em 704 a.C. e fez de Nínive a capital da Assíria, transformando-a numa das maiores cidades do império. Construiu um grande palácio com milhares de estátuas, muitos vastos jardins e 71 salas.
Quando a violência irrompeu por toda a Babilónia meridional, Senaqueribe sedou a rebelião e criou um governo fantoche em Babilónia. Em 701 a.C. as forças assírias cercaram Jerusalém mas foram forçadas a retirar-se para sedar outra rebelião na Babilónia.
Em 694 a.C. Senaqueribe atacou o Elam meridional atravessando o Golfo Pérsico com forças navais. As suas tropas foram derrotadas e uma coligação de combatentes elamitas respondeu tomando a cidade de Babilónia. Em resposta, Senaqueribe saqueou Babilónia, arrasando-a ao solo e tomando milhares de habitantes como prisioneiros.
Tal como Tukulti-Ninurta, Senaqueribe foi assassinado por outros assírios devido às suas ordens de destruir os sítios sagrados de Babilónia. O filho de Senaqueribe, Esaradão, marchou sobre Nínive e derrotou as forças dos assassinos.
Esaradão tornou-se rei em 680 a.C. e reconstruiu Babilónia, declarando que a cidade fora destruída devido à sua maldade e que os deuses o tinham escolhido para restaurar a sua glória. Esaradão expandiu notavelmente o território do império, conquistando por fim o Egipto e a sua capital Mênfis. Esaradão morreu no caminho para o Egipto para sedar uma rebelião em 669 a.C.
O filho mais velho de Esaradão, Assurbanípal, tornou-se rei da Assíria e o filho mais novo de Esaradão, Shamash-shum-ukin, tornou-se rei de Babilónia. Assurbanípal foi o soberano assírio mais atento à literatura e deu ordens especiais para que obras literárias fossem levadas à sua biblioteca de Nínive.
Elamitas e babilónios enfrentaram as forças assírias invasoras em Elam e foram decisivamente derrotados na batalha do rio Ulai em 653 a.C. Nesse mesmo ano Shamash-shum-ukin recrutou forças elamitas para combater contra o irmão.
Em 648 a.C. Assurbanípal conduziu as suas forças a Babilónia e matou o irmão, pondo fim à sua luta pelo poder. No ano seguinte Assurbanípal conduziu o exército em Elam e destruiu a cidade de Susa.
Queda do império
À morte de Assurbanípal em 630 a.C., o império assírio estava no seu apogeu de poder. Contudo começou rapidamente a decair e a fragmentar-se. O império a essa altura estava grandemente sobre-estendido e as suas fronteiras e postos avançados não podiam ser defendidos adequadamente. Além disso, muitos dos súbditos conquistados do império viam cada vez mais os assírios como soberanos duros que impunham impostos excessivos.
Uma grande guerra civil irrompeu entre Ashur-etil-ilani, Sin-shumu-lishir e Sin-shar-ishkun pelo controlo do trono assírio. O Egipto, considerado um estado vassalo, aproveitou a instabilidade política no coração assírio declarando a independência, mantendo contudo as relações diplomáticas amigáveis. Nabopolassar tornou-se rei de Babilónia e começou progressivamente a empurrar a Assíria para fora da Babilónia entre 625 e 620 a.C., embora fosse imediatamente repelido quando tentou invadir a Assíria.
Citas e cimérios começaram a conduzir pilhagens nas colónias ao longo da periferia do império, sobretudo no Cáucaso. Saquearam com sucesso também cidades por todo o Levante, Israel e Egipto.
O rei medo iraniano Ciaxares formou uma aliança com Nabopolassar para infligir um golpe decisivo à Assíria. Em 612 a.C. estas forças destruíram as grandes cidades assírias de Ashur e Nínive. Embora uma certa resistência assíria continuasse até ao século VI a.C., os assírios nunca mais seriam uma forte força independente na região.
Assíria moderna
O povo assírio de hoje é predominantemente de cristãos siríacos que identificam a sua descendência dos antigos povos assírios e babilónicos.
Muitos assírios da região emigraram para outros países do mundo devido a perseguições e violência étnica dirigida. Estima-se que cinco milhões de assírios vivam hoje no mundo.
Ao longo do século XIX e do início do século XX, o Império otomano perseguiu pesadamente a comunidade assíria, culminando no genocídio assírio de 1915.
Ao longo de 1915 as tropas otomanas de regresso do Irão cometeram numerosos massacres contra as comunidades cristãs, incluindo os assírios siríacos. Os peritos consideram que até 250.000 assírios morreram durante o genocídio.
Após a fundação da República da Turquia em 1923, a maioria dos assírios que viviam na Turquia fugiu para a Síria e o Iraque.
Quando o Iraque entrou na Sociedade das Nações como nação independente em 1932, os assírios que viviam no país recusaram-se a unir-se ao país recém-fundado. Os assírios iraquianos propuseram em vez disso uma nação assíria independente no norte do Iraque, mas isso foi negado.
O governo iraquiano recém-fundado efectuou um massacre contra os assírios na cidade de Simele em 1933. Estima-se que 3.000 civis assírios morreram às mãos do exército iraquiano. Muitos refugiados assírios do massacre criaram aldeias ao longo do rio Khabur. Uma unidade inteiramente assíria foi criada pela força de ocupação britânica durante o período do mandato e era particularmente notável pela sua coragem e lealdade. Esta unidade era frequentemente usada para sedar as rebeliões árabes por todo o Iraque e a Síria.
Os assírios combateram também em unidades britânicas durante a Segunda Guerra Mundial e desempenharam um papel importante em sedar um golpe de Estado iraquiano pró-Eixo em 1941.
Após a Segunda Guerra Mundial, os assírios tornaram-se uma parte importante da sociedade iraquiana. Os assírios ocuparam muitas posições no exército e no sistema político iraquiano e sírio, e as suas cidades espalhadas pelo norte do Iraque floresceram.
Contudo, quando o partido Baath subiu ao poder em ambos os países em 1963, os assírios tornaram-se uma minoria pesadamente perseguida. Os assírios iraquianos uniram-se aos curdos do norte do Iraque para combater uma guerra de guerrilha contra o governo baathista no fim dos anos Oitenta.
O governo de Saddam Hussein respondeu com a campanha Anfal de 1986-1989, em que 2.000 assírios foram mortos e muitas das suas cidades e igrejas foram queimadas até aos alicerces.
A invasão estadunidense do Iraque de 2003 e a guerra civil síria causaram um massivo êxodo de assírios da região ao longo do século XXI, pois os extremistas islâmicos os tomaram frequentemente como alvo.
Muitos assírios foram sistematicamente executados em 2014 pelo ISIL no norte do Iraque, em todo o coração assírio. Este conflito impeliu muitos assírios a unirem-se a grupos armados para combater a influência do ISIL na região.
Conclusão
Tratámos muitos aspectos da Assíria. Resumamos as ideias principais:
- A Assíria começou como a pequena cidade-estado de Ashur na Mesopotâmia setentrional.
- Os assírios começaram gradualmente a expandir o seu império graças à sua incomparável superioridade militar na região.
- No seu auge, o império assírio estendia-se do Egipto ao Irão ocidental.
- O Império assírio caiu devido a rebeliões internas e à sua incapacidade de defender adequadamente o enorme volume de território.
Embora as florescentes cidades do império assírio jazessem em ruína no século VI a.C., as influências das tácticas militares de vanguarda assírias, juntamente com a vibrante cultura do império, viveriam em todo o Médio Oriente.













