Ir para o conteúdo

Seria Cuneglasus o verdadeiro Rei Artur?

Por Caleb Howells

Uma teoria relativamente obscura sobre a verdadeira identidade do Rei Artur é a de que ele pode ser identificado com uma figura histórica chamada Cuneglasus. Além de a teoria em si ser obscura, esta figura histórica é também relativamente desconhecida. Ainda assim, ele é uma das figuras melhor documentadas da Britânia arturiana. Quem era ele e por que razão alguns investigadores concluem que ele foi o verdadeiro Rei Artur?

Manuscrito do De Excidio Britanniae de Gildas, Biblioteca da Universidade de Cambridge
Manuscrito do De Excidio Britanniae de Gildas, Biblioteca da Universidade de Cambridge, ThêtaBlackhole, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Quem Foi Cuneglasus?

Cuneglasus foi um dos cinco reis mencionados por Gildas no seu documento conhecido como De Excidio, escrito em algum momento do século VI. Neste documento, Gildas criticava o estado então vigente da Britânia e dirigiu comentários severos a cinco reis contemporâneos. Cuneglasus foi um desses reis.

Infelizmente, Gildas não nos fornece qualquer tipo de biografia coerente sobre este rei. Em vez disso, apresenta uma coleção de informações algo dispersas sobre ele, coisas que só eram relevantes para o propósito de Gildas de criticar o seu caráter.

A Dinastia de Cuneglasus

Gildas não nos diz diretamente qual o reino que Cuneglasus governava. Contudo, nos registos genealógicos medievais posteriores relativos aos reinos galeses, existe apenas uma figura deste período que apresenta um nome que pode ser interpretado como uma forma de “Cuneglasus”.

A figura em questão chama-se Cynlas. No registo mais antigo em que aparece, a genealogia do século X encontrada no Harleian MS 3859, o seu nome aparece grafado “Cinglas”, preservando de forma mais clara a ligação a “Cuneglasus”.

De acordo com estas genealogias medievais posteriores, Cuneglasus (se esta identificação com Cynlas estiver correta, o que é muito provável) foi um rei do reino de Rhos. Este era um reino no norte do País de Gales, que fazia parte do reino maior de Gwynedd ou então era um pequeno reino mesmo ao lado dele.

A estreita ligação a Gwynedd é também corroborada pelas genealogias. Estas fazem de Cynlas o primo direito de Maelgwn, o poderoso rei de Gwynedd a quem Gildas dirigiu igualmente alguns comentários críticos. Faz, portanto, sentido que os reinos de Maelgwn e de Cuneglasus tenham estado próximos um do outro.

Outros Membros da Família

De acordo com estes registos genealógicos, Cuneglasus era filho de uma figura chamada Owain Danwyn (outro rei que, por vezes, é identificado por investigadores modernos como o verdadeiro Rei Artur).

Não se sabe muito sobre a família imediata de Cuneglasus. Segundo um registo, o Bonedd Y Saint, o pai de Cuneglasus, Owain, foi também pai dos santos Einion Frenin, Seiriol e Meirion. No entanto, isto é tudo o que se sabe sobre a sua família. Não são conhecidos outros irmãos, nem o nome ou a linhagem da sua mãe são mencionados nos registos sobreviventes.

Quando Viveu Cuneglasus?

Uma vez que Cuneglasus é muito obscuro na tradição galesa sobrevivente, a única base real para datar a sua carreira é o facto de ele ainda ser rei quando Gildas escreveu o De Excidio. Podemos também usar as evidências das genealogias, embora estas não sejam isentas de problemas.

O próprio Gildas não diz quando escreveu, embora o facto de nomear outros quatro reis vivos nos ajude a datar Cuneglasus. Destes cinco, o rei sobre o qual mais sabemos é Maelgwn, rei de Gwynedd. Embora a sua morte tenha sido tradicionalmente situada em 547 com base nos Annales Cambriae, investigações mais recentes, encontradas no Trioedd Ynys Prydein de Rachel Bromwich, salientaram que existe alguma base para acreditar que Maelgwn pode ter reinado no final do século VI.

Se assim for, isto situaria igualmente o reinado de Cuneglasus no final do século VI. É claro que a datação de Gildas e dos seus cinco reis contemporâneos é altamente controversa, mas podemos afirmar com confiança que Cuneglasus reinou em algum momento do século VI.

Britânia, c. 540, no tempo de Gildas
Britânia, c. 540, no tempo de Gildas, myself, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Evidências de que Cuneglasus Foi o Verdadeiro Rei Artur

O argumento de que Cuneglasus foi o verdadeiro Rei Artur baseia-se primordialmente nos vários pormenores que Gildas nos fornece, embora incorpore também o pouco que está registado sobre ele noutras fontes.

Cuneglasus, o Urso

Uma das principais peças de evidência usadas em apoio a esta teoria provém de uma linha específica do De Excidio de Gildas. Na passagem em questão, Gildas chama diretamente a Cuneglasus de “urso”. Por que razão é isto tão interessante para os investigadores arturianos?

A razão é que a palavra galesa para “urso” é “arth”. Com base neste facto, muitos especularam que o nome “Artur” é na verdade um título baseado neste animal. Ou, inversamente, “Artur” pode ter sido outro dos nomes de Cuneglasus, sendo a referência de Gildas a ele como urso um trocadilho baseado nesse nome. Em qualquer caso, o facto de Gildas chamar a Cuneglasus de urso é uma evidência clara de uma ligação ao elemento “arth”, que é próximo do nome do Rei Artur.

O Rei Ausente de Godofredo de Monmouth

Outra peça de evidência notável que tem sido usada pelos defensores desta teoria é o facto de Cuneglasus não aparecer na Historia Regum Britanniae de Godofredo de Monmouth, escrita por volta de 1137. Por que razão é isto tão significativo?

A razão é que Godofredo de Monmouth escreveu sobre os reis contemporâneos mencionados por Gildas. Aparentemente, ele compreendeu de algum modo erradamente os comentários de Gildas no De Excidio como descrições de reis sucessivos em vez de reis contemporâneos. Escreveu sobre cada um deles por sua vez, apresentando-os como sucessores do Rei Artur em sequência.

No entanto, Godofredo não incluiu notavelmente Cuneglasus. Menciona primeiro Constantino como sucessor de Artur. Depois menciona Aurelius Conan, após o qual reina Vortipor. Por fim, Godofredo menciona Maelgwn Gwynedd.

Esta é precisamente a mesma ordem dos comentários de Gildas sobre eles no De Excidio, e muitos dos pormenores que Godofredo inclui no seu breve resumo dos respetivos reinados parecem também retirados de Gildas. E, no entanto, Cuneglasus está ausente. Qual é a explicação para isto?

Segundo os defensores desta teoria, Cuneglasus está ausente do relato de Godofredo sobre os sucessores de Artur porque ele compreendeu que o próprio Cuneglasus era, na verdade, idêntico a Artur.

Uma Espada Especial

Outra ligação interessante entre Artur e Cuneglasus envolve as suas armas. Como é famoso, o Rei Artur tinha a sua espada especial, Excalibur. Nos textos galeses, ela é chamada Caledfwlch. Nos primeiros textos latinos, é chamada Caliburnus. Mas Excalibur é o nome pelo qual ela é mais comummente conhecida hoje.

E quanto a Cuneglasus? Existe um comentário breve mas interessante que Gildas faz sobre ele. Repare-se na seguinte linha do De Excidio:

“Por que manténs tamanha discórdia contra os homens e contra Deus? Contra os homens, os teus próprios compatriotas, com efeito, por meio de armas peculiares a ti; contra Deus, por crimes sem número?”

Note-se a referência a Cuneglasus causando discórdia aos seus próprios compatriotas por meio de “armas peculiares a ti”. Assumindo que Cuneglasus não possuía algum tipo de tecnologia secreta da Idade das Trevas, isto sugere que ele tinha uma espada especial e também que essa espada era famosa. Isto relaciona-se muito bem com a lenda de Artur ter a sua própria espada especial.

Um Rei Cruel e Brutal

Pelo menos um investigador argumentou que identificar Cuneglasus como Artur — ou, pelo menos, supor que ele tinha contribuído para a lenda de Artur até ao século XII — explicaria a representação de Artur em muitas hagiografias de figuras religiosas como um tirano problemático que se opõe à obra de Deus.

Isto contrasta vivamente com o modo louvável como Artur é retratado em muitos dos relatos mais antigos, como a Historia Brittonum.

De modo semelhante à forma como Artur é retratado nessas hagiografias, Gildas apresenta Cuneglasus como um tirano cruel, desrespeitoso para com Deus e os seus preceitos. Embora seja apenas um ponto menor, esta descrição de Cuneglasus poderia explicar a caracterização de Artur nesses registos religiosos posteriores.

Discórdia Conjugal

Gildas refere-se também a alguns pecados que Cuneglasus cometeu no que diz respeito à sua vida matrimonial e que, discutivelmente, correspondem às lendas do Rei Artur. Repare-se na seguinte declaração de Gildas:

“Por que, além de inúmeras quedas, tu, tendo expulsado a tua esposa, dirigis os teus olhos para a sua irmã covarde, que fez a Deus voto de perpétua castidade de viuvez.”

Segundo esta acusação severa, Cuneglasus tinha expulsado a sua própria esposa e “lançado os olhos” sobre a irmã dela, a quem Gildas chama de “covarde”. Outra tradução chama-lhe “detestável”. Como é que isto se encaixa nas informações encontradas nas lendas arturianas sobre Artur e a sua esposa?

As lendas arturianas envolvem famosa e abundantemente intriga entre Artur e a sua esposa Ginebra. Esta intriga apresenta-se sob muitas formas diferentes, dependendo da lenda específica que for seguida. Numa versão, a própria Ginebra abandona Artur e junta-se a Mordred na sua rebelião.

Nas Tríades Galesas, encontramos indícios de uma tradição na qual uma irmã de nome semelhante ao de Ginebra casou com Mordred e opôs-se a Ginebra. Numa outra lenda ainda, Artur e o seu antigo aliado Lancelot travaram uma guerra por causa de Ginebra.

Contudo, a forma da lenda mais semelhante ao que Gildas referiu é a lenda da Falsa Ginebra. Esta aparece no Ciclo da Vulgata, escrito no início do século XIII. Nesta lenda, Ginebra tem uma irmã gêmea malévola que conspira para tomar o lugar da verdadeira Ginebra. Ela manipula Artur, levando-o a expulsar e encarcerar a sua verdadeira esposa e a tomar a irmã dela como rainha.

Isto corresponde extremamente bem ao que Gildas escreveu sobre Cuneglasus expulsar a sua própria esposa e pousar os olhos sobre a sua “irmã detestável”.

A Leoa

Uma extensão deste ponto sobre a esposa de Cuneglasus é a declaração que Gildas faz sobre uma certa “leoa”. Ele denuncia a conduta de Cuneglasus e explica que ela levará a que os dentes de uma “leoa feroz” venham sobre ele para o destruir.

Quem era esta leoa? Curiosamente, mais cedo no De Excidio, Gildas tinha chamado ao rei Constantino “o filhote tirânico da impura leoa de Damnónia”. Nesta declaração, a leoa parece representar a mãe de Constantino.

Com base nisto, foi argumentado que os “dentes de uma leoa feroz” que em breve atacariam Cuneglasus pelos seus pecados eram forças do reino de Dumnonia, podendo talvez significar o próprio Constantino, como filho da dita leoa.

Por que razão é isto tão interessante? A razão é que Ginebra, a esposa de Artur, é segundo Godofredo de Monmouth apresentada como tendo sido a irmã de criação do rei Constantino.

Recorde-se que Gildas condenou Cuneglasus por expulsar a sua esposa. Segundo os defensores desta teoria, este pode ter sido o pecado específico que Gildas sugeriu que levaria ao ataque dos “dentes da leoa feroz”. Se esta expressão fosse uma referência a Constantino, como se teorizou, isto indicaria que Constantino tinha alguma ligação pessoal à esposa de Cuneglasus. Isto apoia a identificação da esposa de Cuneglasus com Ginebra, a irmã de criação de Constantino segundo a lenda.

Terrível na Juventude

Outro argumento provém do facto de existir uma tradição obscura segundo a qual Artur foi terrível na sua juventude. O principal exemplo disto encontra-se numa versão da Historia Brittonum. O texto principal foi escrito em 830, mas existem várias versões manuscritas de diferentes períodos. Algumas delas têm glosas, comentários adicionados pelo escriba.

Um manuscrito, datado do século XIII, acrescenta a seguinte linha no seu relato sobre Artur, explicando que ele era chamado:

“em britónico mab Uter, ou seja, em latim filho terrível, porque desde a juventude foi cruel.”

Isto é de certo modo corroborado por um poema galês conhecido como The Dialogue of Arthur and the Eagle (“O Diálogo de Artur e a Águia”), no qual encontramos a seguinte descrição de Artur:

“Artur, o terrível portador da espada.”

Esta ideia de que Artur foi terrível na juventude é consistente com a forma como Gildas descreve Cuneglasus. Repare-se na seguinte descrição de Cuneglasus no De Excidio:

“Por que razão te reviras também tu na antiga imundície da tua maldade, desde os anos da tua juventude?”

Segundo isto, Cuneglasus entregava-se à maldade desde “os dias da sua juventude”. Neste sentido, ele poderia certamente ser descrito como “filho terrível” e “cruel desde a juventude”, tal como o manuscrito do século XIII da Historia Brittonum descreve Artur.

Vista da Baía de Colwyn a partir de Bryn Euryn
Vista da Baía de Colwyn a partir de Bryn Euryn, ColwynBoy, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

Objeções a Esta Teoria

O problema fundamental desta teoria é que quase toda a evidência é muito genérica ou assenta em ligações muito forçadas. Consideremos cada peça de evidência por sua vez.

Cuneglasus Era Realmente Chamado Artur?

A única peça de evidência com algum peso real é o ponto sobre Cuneglasus poder ter sido chamado “Artur”. É um facto que Gildas chama realmente e diretamente a este rei de urso, e é também um facto que “urso” em galês é “arth”.

No entanto, mesmo com estes factos incontestáveis, este argumento não está isento de problemas. O maior problema é algo que o leitor possivelmente já notou. Cuneglasus não é a única figura a quem Gildas se refere como um animal. Já vimos que ele se referiu à mãe de Constantino como uma leoa.

Na verdade, Gildas refere-se a todos os cinco reis como bestas. Por exemplo, Vortiporius é chamado de leopardo, Aurelius Caninus é chamado de filhote de leão, e Maelgwn é chamado de dragão. Os estudiosos interpretam geralmente estas descrições como baseadas, ou pelo menos inspiradas, nas bestas mencionadas no livro bíblico do Apocalipse.

Sendo assim, não há razão para interpretar a descrição de Cuneglasus como um urso como uma referência a qualquer título real que ele tivesse.

Contra-argumento

Por outro lado, várias das expressões usadas por Gildas são evidentemente trocadilhos baseados nos termos correntes. Por exemplo, ele chama ao reino de Constantino “Damnónia” em vez do correto “Dumnonia”, evidentemente para aludir ao conceito de danação. Outros exemplos existem nesta secção do De Excidio.

Portanto, embora as referências às bestas pareçam de facto inspiradas na Bíblia, isto não exclui a possibilidade de Gildas ter escolhido o urso para Cuneglasus especificamente porque seria um trocadilho relacionado com o seu outro nome.

Não obstante, apesar desta possibilidade, vemos que esta peça de evidência de que Cuneglasus também era conhecido como “Artur” não é de modo algum tão forte quanto à primeira vista parece.

Por Que Razão Godofredo Não o Mencionou?

E quanto ao facto de Godofredo não ter mencionado Cuneglasus na sua lista de reis posteriores a Artur, quando menciona os outros quatro reis criticados por Gildas?

A resposta simples é que não sabemos. Uma sugestão é que a versão original da Historia Regum Britanniae de Godofredo incluía de fato Cuneglasus, mas que ele se perdeu dos manuscritos numa fase inicial da sua difusão.

Em qualquer caso, a ideia de que isto pode ser usado para justificar a identificação de Cuneglasus com Artur é seriamente falhosa. Uma questão enorme é o facto de isto exigir que Godofredo soubesse e compreendesse que o Cuneglasus de Gildas era o mesmo que Artur.

Contudo, se Godofredo tivesse compreendido isso, então teria logicamente incorporado os pormenores que Gildas incluiu sobre Cuneglasus na sua descrição de Artur. Por exemplo, há o ponto de Cuneglasus ter sido ímpio na juventude. Depois há o ponto de ele ter deixado a esposa em favor da irmã desta. Nada disto está na narrativa de Godofredo de Monmouth. E, no entanto, no que diz respeito aos outros reis, Godofredo demonstradamente usa os pormenores fornecidos por Gildas no seu relato dos respetivos reinados.

Tinha Cuneglasus Realmente uma Espada Especial?

A ideia de que Cuneglasus tinha a sua própria espada especial, à semelhança da Excalibur de Artur, baseia-se na tradução de Hugh Williams, escrita em 1899. As palavras efetivamente escritas por Gildas foram “armis specialibus”. A ideia de que isto significa “armas especiais para ti” não é apoiada por todas as traduções (notavelmente a tradução de Giles, de 1900), mas parece de fato uma tradução razoável.

Não obstante, devemos realmente interpretar isto como significando que ele tinha uma espada especial como a Excalibur de Artur?

Note-se que Gildas não se refere a uma única arma especial, mas a “armas”. Talvez Cuneglasus empregasse certos equipamentos romanos que tinham caído em desuso na maior parte do resto da Britânia nessa altura. Alternativamente, poderá tratar-se de uma referência ao método geral de guerra de Cuneglasus, que lhe era peculiar.

Em qualquer caso, a ideia de que isto se refere a uma espada especial não é a explicação mais natural, tendo em vista o uso do plural “armis” por Gildas.

Os Comentários Críticos de Gildas

Consideremos agora o argumento de que as duras críticas de Gildas a Cuneglasus explicam a caracterização de Artur nas Vidas dos Santos. Existem pelo menos dois problemas com este argumento.

O primeiro é que Artur não é retratado como moralmente corrupto na maioria das outras fontes, incluindo a Historia Brittonum. Portanto, no melhor dos casos, Cuneglasus só poderia ter contribuído para a caracterização de Artur nessas hagiografias religiosas. Está claro que ele não poderia ser a origem central por trás da lenda de Artur, que era famoso pela sua retidão moral.

Vemos isto até nos próprios escritos de Gildas. Ele elogia a obra de Ambrosius Aurelianus no combate de volta contra os saxões. Ele vê as campanhas vitoriosas dessa época até à culminante Batalha de Badon, incluída, como inteiramente positivas.

As lendas arturianas ligam firmemente Artur à Batalha de Badon. Isto vê-se já na Historia Brittonum, a fonte mais antiga para a carreira de Artur. Portanto, se Artur fosse uma pessoa histórica da época de Gildas, ele não poderia justamente tê-lo criticado depois de ter falado tão positivamente sobre a Batalha de Badon.

Assim, não faz qualquer sentido compreender Cuneglasus, o rei severamente criticado por Gildas, como o vencedor de Badon.

O segundo problema com este argumento é que a caracterização de Artur nas Vidas dos Santos é muito claramente nada mais do que o desejo dos autores das hagiografias de fornecer antagonistas proeminentes às figuras religiosas sobre as quais escreviam.

Estas hagiografias mostram constantemente os reis sob uma luz negativa para proporcionar uma oportunidade ao santo em questão de vencer algum tipo de oposição. Portanto, a caracterização negativa de Artur nesses registos provavelmente não tem valor histórico.

A Verdade sobre a Relação de Artur com Ginebra

Um argumento que à primeira vista parece convincente é a correspondência entre as observações de Gildas sobre o comportamento de Cuneglasus para com a sua esposa e a irmã desta e a lenda arturiana da Falsa Ginebra. A correspondência parece de fato perfeita.

O grande problema disto é que a história da Falsa Ginebra não aparece em lado nenhum anteriormente ao século XIII. Não há vestígio dela na tradição galesa nem na tradição continental anterior.

De fato, nas versões anteriores das lendas arturianas, o Rei Artur é em geral ou o salvador de Ginebra depois de esta ser raptada por outra pessoa, ou é Ginebra quem trai Artur. Contudo, a ideia de Artur repudiar a esposa e perseguir outra pessoa é inexistente nas fontes mais antigas.

Portanto, temos de rejeitar a história da Falsa Ginebra como tendo qualquer valor histórico.

Era Realmente a Mãe de Constantino a Leoa?

Suponhamos, por um momento, que ignoramos este obstáculo à identificação da esposa de Cuneglasus com a Ginebra de Artur. E quanto ao argumento de que Constantino era os “dentes da leoa” que em breve puniria Cuneglasus pelos seus pecados contra a esposa, em consonância com a lenda arturiana de que Ginebra era a irmã de criação de Constantino?

Existem pelo menos dois grandes problemas com isto. Em primeiro lugar, Gildas menciona uma multiplicidade de pecados. Não há base para a conclusão de que Gildas estava a referir-se aos pecados de Cuneglasus contra a sua esposa como sendo o ato de maldade que incitaria à ira os “dentes da leoa”. Esta ligação é inteiramente arbitrária.

Além disso, também não há evidência de que Gildas tivesse em mente a mesma pessoa ou entidade quando se referiu a uma leoa nesta passagem e quando se referiu à leoa associada a Constantino.

Na verdade, a leitura da linha completa torna claro que ele não estava a falar da mãe de Constantino. Repare-se no seguinte:

“Por que provocas, com as tuas repetidas injúrias, os gemidos e os suspiros dos santos, que por tua causa vivem no corpo, como se fossem os dentes de uma enorme leoa que um dia quebrará os teus ossos?”

Como vemos pela passagem completa, Gildas liga de fato a ira que em breve viria sobre Cuneglasus aos seus pecados contra os santos. Além disso, são esses santos que Gildas designa como os dentes de uma leoa. Portanto, quando lemos a frase completa, fica claro que isto não pode ter nada a ver com Constantino ou com a esposa de Cuneglasus e, portanto, não pode oferecer qualquer evidência de que a sua esposa fosse Ginebra.

Foi Artur Realmente um Jovem Terrível?

Por fim, há o argumento de que Artur era conhecido por ter sido ímpio na juventude, o que se encaixa na descrição de Cuneglasus por Gildas. A evidência para isto provém da versão do século XIII da Historia Brittonum discutida anteriormente.

Dispensado dizer que esta é uma evidência muito tardia e que contradiz evidências anteriores. Com base na própria redação fornecida naquele manuscrito, é óbvio que ela assenta numa compreensão alternativa de Artur ser “ap Uthyr”. Isto significa “filho de Uthyr”, mas o escriba responsável pela glosa do século XIII compreendeu-o como “filho terrível”.

Tanto na Historia Regum Britanniae de Godofredo de Monmouth como na tradição pré-galfridiana, Artur é feito filho de Uthyr. Portanto, a evidência aponta esmagadoramente para a glosa na Historia Brittonum ser um equívoco desta tradição anterior, e não o contrário.

Sendo assim, não podemos usar a glosa na Historia Brittonum para tentar encontrar o verdadeiro Rei Artur, uma vez que esta é demonstradamente uma tradição tardia que evoluiu de uma tradição inteiramente diferente.

O facto de o poema galês The Dialogue of Arthur and the Eagle chamar a Artur de “terrível portador da espada” não ajuda esta teoria. O uso da palavra “terrível” neste contexto refere-se claramente a ser altamente eficaz com uma espada, terrível do ponto de vista dos seus inimigos. Não tem nada a ver com o caráter moral.

Panorama de Snowdonia
Panorama de Snowdonia, Michael Westley, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

Conclusão

Em conclusão, a teoria de que Cuneglasus foi o verdadeiro Rei Artur baseia-se primordialmente numa comparação entre os comentários de Gildas sobre este rei e uma variedade de tradições dispares concernentes a Artur. Contudo, esta teoria assenta em escolher e selecionar uma ampla gama de pormenores, muitos dos quais contradizem tradições anteriores — e, portanto, mais ponderosas. Vemos isto, por exemplo, no argumento relativo à Falsa Ginebra. No conjunto, há muito pouco que recomende esta teoria como uma explicação viável para o verdadeiro Rei Artur.

Fontes

Bartrum, Peter, A Welsh Classical Dictionary, 1993

Anderson, A. O., Gildas and Arthur, 1912

Pestano, Dane and Wilson, Mak, Cuneglasus, Ursus and King Arthur, 2017

https://www.maryjones.us/jce/uther.html

Por Caleb Howells

Publicado