Os incríveis trabalhadores especializados que construíram as civilizações da antiga Mesopotâmia
Os trabalhadores especializados mesopotâmicos foram fundamentais para a construção das muitas extraordinárias civilizações do Crescente Fértil. A sua existência tornou possível uma eficaz divisão do trabalho atribuível com base nas competências e nas atitudes dos trabalhadores. Neste sentido podiam realizar as suas próprias aspirações individuais — algo que permanece muito importante também na sociedade de hoje.
No entanto alguns trabalhadores eram considerados mais relevantes, poderosos ou essenciais em relação a outros. Por conseguinte, tanto um sistema de classes como uma hierarquia se formaram no interior da sociedade mesopotâmica. Continue a ler para descobrir como isso ocorreu e como ainda nos diz respeito hoje.
Quem são os trabalhadores especializados?
Os trabalhadores especializados são pessoas instruídas ou formadas para se tornarem mestres artífices ou especialistas numa especialização profissional. A especialização do trabalho na Mesopotâmia permitia a estas pessoas concentrarem-se exclusivamente na própria especialização ocupacional.
Deste modo podiam aspirar a exceler no próprio campo e associar-se a outros profissionais do mesmo percurso de carreira.
Assim os trabalhadores especializados formaram grupos que com o tempo se tornariam os tijolos para construir civilizações inteiras, distinguir as culturas e fazer progredir a humanidade.
Dos agricultores aos escribas, dos sacerdotes aos soldados de profissão, a especialização profissional na Mesopotâmia foi vital para o crescimento de uma das culturas antigas mais ricas, diversas, complexas e fascinantes do mundo.
A especialização do trabalho na Mesopotâmia
Mesopotâmia, cujo nome deriva das palavras gregas «meso» — que significa «no meio» — e «potamos» — que significa «rios» — era uma terra situada no rico e viçoso vale do Crescente Fértil, esculpido pelos rios Tigre e Eufrates. No mapa geográfico contemporâneo esta área corresponde ao Kuwait, à Síria, à Turquia sudeste, ao Iraque e ao Irão noroeste.
Pequenos grupos de tribos nómadas arcaicas afastaram-se das comunidades de caçadores-recolectores e organizaram-se para criar comunidades mais amplas dedicadas à agricultura. Daí floresceram culturas agrárias e urbanas complexas, coloridas e diversas.
Por conseguinte tornou-se essencial instaurar uma rígida ordem social para dividir e organizar o trabalho necessário a fazer funcionar uma sociedade tão complexa. Foi assim que os trabalhadores especializados se tornaram um elemento crucial, como resultado directo da necessidade de uma hierarquia.
Hierarquia e classe social
A hierarquia é o sistema em que as pessoas são classificadas na sociedade, com base na sua classe e na sua importância no interior dessa civilização. Era uma prática fundamental de organização do trabalho na cultura da antiga Mesopotâmia.
Reis, membros da família real e nobres ocupavam o posto mais alto na sociedade; a seguir vinham os chefes religiosos, os sacerdotes e as sacerdotisas. Representantes governamentais eleitos, comandantes militares e conselhos locais detinham o nível seguinte, seguidos de escribas, mercadores ricos, funcionários civis e professores.
Soldados de profissão, comerciantes, artífices, agricultores e outros trabalhadores qualificados formavam o nível superior das classes inferiores. É interessante notar que também os músicos pertenciam a esta categoria, pois as harpas eram apreciadas nos palácios reais. Por sua parte, os trabalhadores não qualificados e os camponeses encontravam-se logo acima dos escravos, que estavam na base da pirâmide social.
A classe superior: a realeza e o clero
Os reis eram os indivíduos mais poderosos na antiga Mesopotâmia, constituindo a classe dirigente e responsáveis por fazer respeitar as leis do país, organizar a guerra, supervisionar as questões judiciais e conduzir as relações diplomáticas.
A classe superior era composta de nobres e funcionários governamentais eleitos, que aconselhavam o rei e geriam uma variedade de assuntos em nome da realeza. Um direito importante dos governadores eleitos era a possibilidade de contrariar alguns caprichos do rei se este fosse tido como imprudente.
Este elemento, típico de um sistema democrático, apareceu pela primeira vez na antiga Mesopotâmia e seria decisivo para as bases da moderna política, administração, direito e governo. Sacerdotes e sacerdotisas eram também extremamente importantes na Mesopotâmia, servindo de intermediários entre o reino espiritual dos deuses e o mundo. Com a sua sabedoria superior, estavam encarregados de aconselhar o rei. Deve recordar-se que uma das partes mais importantes da vida mesopotâmica era a religião.
Portanto sacerdotes e sacerdotisas exerciam uma grande influência sobre a sociedade e os indivíduos, ninguém excluído. Os reis, por sua parte, eram percebidos como divinos ou fortemente influenciados pelos deuses — embora por vezes tivessem de responder aos chefes religiosos.
Eruditos e escribas
Com um estatuto social igual ao de médicos e curandeiros, professores, soldados de profissão e mercadores, os escribas eram a espinha dorsal da Mesopotâmia. Operando ao lado das muitas classes hierárquicas, os escribas ajudavam em várias funções, entre as quais o registo das informações** e a redacção das transacções comerciais.**
A instrução era muito importante e permitia aos eruditos dedicarem-se a vários campos complexos, entre os quais:
- Filosofia
- Medicina
- Botânica
- Direito
- Música
- Diplomacia
- Comércio
- Arquitectura
- Matemática
Isto permitia aos eruditos ensinar ou concentrar-se em estudos particulares para determinados âmbitos, ou assumir trabalhos especializados para supervisionar o trabalho ou as obras das classes inferiores.
A classe média/inferior
As figuras mais importantes da classe inferior eram os artífices, formados para serem mestres da própria especialização. Na cidade suméria de Ur, inovação e engenho eram importantes tanto quanto a habilidade dos trabalhadores especializados. Por esta razão esta classe média/inferior incluía tanto trabalhadores como artistas.
Forneciam à Mesopotâmia alguns dos aspectos mais distintivos da sua sociedade. Algumas das aplicações dos trabalhadores especializados eram:
- Agricultores
- Soldados
- Mercadores
- Joalheiros
- Artistas
- Canteiros
- Carpinteiros
- Tecelões
- Fundidores
Os seus trabalhos, as suas competências e os seus esforços elevaram a sociedade da antiga Mesopotâmia a novos cumes, para além das fronteiras do mundo antigo.
Os trabalhadores não qualificados
Ao seu modo, os trabalhadores não qualificados eram essenciais para a divisão do trabalho na antiga Mesopotâmia: transportar pedras, deslocar terra ou trabalhar nos campos era de facto de grande importância para a construção de uma civilização.
Os trabalhadores especializados estavam encarregados de supervisionar estes operários na execução das tarefas mais árduas. Abaixo de todos na hierarquia social estavam os escravos, capturados na guerra ou indivíduos que pagavam uma dívida.
No entanto podiam obter algumas melhorias de estatuto consoante as próprias competências individuais. Outros escravos estavam sujeitos a privações incríveis e a um trabalho extenuante, à deportação ou à morte.
As mulheres como trabalhadoras especializadas
Na sociedade da antiga Mesopotâmia as mulheres eram essencialmente iguais aos homens em muitas capacidades. Eram-no tanto no estatuto social como na força de trabalho, embora alguns trabalhos fossem reservados aos homens — como os soldados de profissão.
Embora se considerasse que existiam disparidades entre a inteligência de homens e mulheres, na antiga sociedade mesopotâmica existia uma noção de equivalência feminina no campo dos negócios. Individualmente as mulheres detinham um controlo sobre a própria vida sem par noutras civilizações antigas, pois podiam:
- Possuir actividades comerciais
- Praticar a medicina
- Produzir cerveja
- Guiar nações
- Servir como sacerdotisas
- Possuir tabernas
Mulheres poderosas e influentes na antiga Mesopotâmia incluíam Ku-Baba, a primeira rainha de Sumer, Enheduanna, filha de Sargão o Grande e autora da mais antiga assinatura alguma vez registada, e a sacerdotisa e escritora Ninsatapada.
Especialização profissional na Mesopotâmia: que carreiras estavam disponíveis?
Agora que estabelecemos o papel dos indivíduos na sociedade, examinemos os trabalhos disponíveis na Mesopotâmia.
Direito
Aos babilónicos atribui-se o terem estabelecido alguns dos elementos mais distintivos e fascinantes do mundo mesopotâmico. O rei Hamurabi foi um dos mais importantes da antiga Mesopotâmia, tendo redigido um dos códigos de lei mais completos e aprofundados.
As 282 leis do Código de Hamurabi tornaram-se o padrão para crime e punição no mundo antigo e na idade moderna. As leis de Hamurabi estavam expostas em público para que todos compreendessem poder ser perseguidos se cometessem um crime. Considerado o prestígio detido pelo direito, os trabalhos neste campo eram muito ambicionados.
O soldado de profissão
Os assírios foram uma das primeiras civilizações do mundo a criar e empregar um exército profissional, treinado para a guerra, a conquista e a aplicação da lei e da ordem. Até ao rei Tiglate-Pileser III, que reinou aproximadamente de 1100 a.C. a 1076 a.C., os soldados eram predominantemente recrutados entre os agricultores que combatiam apenas durante os meses de Verão.
O exército profissional foi vital para o sucesso do império assírio, disciplinado na arte da guerra e do combate ao longo de todo o ano. Ser um soldado era portanto uma das ocupações de mais alto perfil.
Arquitectura
Os sumérios foram responsáveis pela construção de um dos edifícios mais distintivos do mundo antigo, existido durante milhares de anos: os zigurates. Estas estruturas rectangulares em degraus eram provavelmente templos.
Os babilónicos são recordados sobretudo pela sua arquitectura elaborada e assombrosa, das estátuas aos palácios. Mas a estrutura mais grandiosa e impressionante foram os Jardins suspensos da Babilónia, uma das Sete Maravilhas do Mundo, considerada a joia do mundo antigo. Daqui é fácil deduzir que a arquitectura era respeitada como uma profissão nobre.
Hidráulica
Por causa do acesso limitado à água fora do vale do Crescente, o precioso líquido tornou-se uma das mercadorias mais preciosas na Mesopotâmia. Para levar a água às aldeias longínquas e às regiões desérticas, irrigação e hidráulica tornaram-se indispensáveis.
As quintas prosperavam com a água canalizada através de barragens, condutas e aquedutos. Além disso os resíduos podiam ser enviados a lixeiras longe das áreas habitadas, prevenindo infecções e doenças. Canalizadores, construtores, arquitectos, escavadores e centenas de outros trabalhadores em várias profissões eram necessários para esta tarefa imponente.
Agricultura
Os agricultores forneciam comida às muitas aldeias, vilas e cidades da Mesopotâmia. A domesticação dos animais tornou-se uma das tarefas mais importantes e especialistas de criação eram necessários para treinar cavalos, bovinos, ovelhas, cabras, galinhas e outras aves.
A inovação era essencial para os agricultores, do processo de irrigação aos instrumentos agrícolas que ajudavam na colheita dos produtos e na sementeira. Algumas das máquinas de origem mesopotâmica incluem:
- Arado puxado por bois
- Foice
- Arado semeador
- Martelos
- Enxadas
Trabalhadores especializados na Mesopotâmia: os assuntos religiosos
Os trabalhadores não qualificados e os escravos destinavam-se a desempenhar tarefas humildes. Em contrapartida, os trabalhadores especializados podiam aspirar a trabalhar para templos ou ordens espirituais. Não era portanto raro ver artífices empenhados nos assuntos religiosos.
Com alguns milhares de operários empregados ao serviço da classe nobre, de sacerdotes, sacerdotisas ou dos deuses próprios, os trabalhadores especializados operavam numa variedade de oficinas dos templos. Algumas das outras profissões atribuídas aos trabalhadores especializados no campo da religião incluíam:
- Fundidores
- Tecelões
- Oleiros
- Cozinheiros
- Músicos
- Alfaiates
Ferreiros e metalúrgicos eram muito procurados e tinham de adquirir anos de formação para estarem à altura do ofício. Apenas os melhores trabalhadores eram contratados para trabalhar nos templos sagrados.
Conclusão
Nas civilizações da antiga Mesopotâmia, a ordem social e os trabalhadores especializados permitiam atribuir trabalhos diferentes com base nas capacidades dos trabalhadores. Tais trabalhos incluíam:
-
Ao nível mais alto, reis, sacerdotes e sacerdotisas
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Na classe média-superior, uma variedade de profissionais abrangia de médicos e professores a escribas e eruditos. Também os soldados de profissão faziam parte deste grupo privilegiado.
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Na classe média-inferior, encontravam-se artífices, mercadores e outros profissionais que podiam desempenhar trabalho manual.
-
Na base da pirâmide social estavam os trabalhadores não qualificados e os escravos.
As mulheres podiam ocupar qualquer degrau da escala social, pois na antiga Mesopotâmia podiam possuir actividades comerciais e guiar nações.
Como na sociedade moderna, competências, aspirações e trabalho duro podiam modificar, pelo menos em parte, a colocação de um indivíduo na sociedade.
Podemos ver como os trabalhadores especializados na antiga Mesopotâmia influenciaram profundamente o modelo das ocupações e como a especialização profissional contribuiu para formar algumas das sociedades mais fascinantes do mundo antigo.













