O desporto no antigo Egipto: divertimento e jogos
Os desportos do antigo Egipto estão entre as muitas actividades físicas praticadas por divertimento no antigo Egipto. São semelhantes às actividades desportivas e aos jogos de que gostamos hoje. Surpreende saber que jogos como o hóquei eram praticados quase do mesmo modo no antigo Egipto como hoje.
Desporto e forma física eram aspectos significativos davida egípcia antiga e ajudavam as pessoas a manter saúde mental e forma. Jogos como o popular senet, uma variante das damas, eram passatempos mais intelectuais. Estes desportos e jogos reflectiam a convicção cultural de participar em algo agradável e positivo para o bem-estar global do indivíduo.
Mais de 200 cenas pintadas de luta, incluindo acrobacias femininas e o que parece ginástica moderna, encontram-se no sítio de Beni Hasan, cujos habitantes viveram durante o Médio Reino do Egipto.
A pintura de soldados em treino militar parece indicar estilos de luta e combate modernos. Durante o Novo Reino, gravuras no túmulo antigo de Medinet Habu representam lutadores egípcios perante o faraó enquanto tentam derrotar rivais ou concorrentes estrangeiros.
A era dos Hyksos
Após a invasão dos Hyksos durante o Segundo Período Intermédio, desportos e actividades recreativas mudaram para incluir costumes hyksos. Os Hyksos introduziram no Egipto os carros puxados por cavalos, que entraram nas exibições de rotina e nos espectáculos desportivos.
Os faraós da XVIII dinastia tentaram reforçar a própria credibilidade militar representando-se nas paredes dos seus túmulos antigos a cavalo de carros de guerra, a caçar por desporto ou em luta.
Pesca, boxe, luta, remo, levantamento de pesos e ginástica estavam entre os desportos egípcios antigos mais famosos. Os desportos mais populares no Egipto eram hóquei em campo, luta e tiro com arco. O tiro com arco era amado por muitos mas praticado sobretudo pela nobreza, pelos príncipes e pelos faraós. Excelente arqueiro, o faraó Amenófis II (1425-1400 a.C.) era conhecido por ser capaz de acertar num alvo com o arco a partir de um carro em movimento.
O exercício físico era essencial para a nobreza do antigo Egipto, mas não estava limitado por classe. As provas das representações artísticas nos túmulos dos faraós indicam que pessoas de todas as classes da sociedade egípcia antiga gozavam e participavam em actividades desportivas.
Os faraós egípcios são muitas vezes representados nas paredes dos seus túmulos com um arco retesado ou a caçar. Os túmulos dos civis estão adornados com imagens de pessoas a correr, a nadar, a jogar à bola e a saltar por desporto.
Tipos de desporto no antigo Egipto
- Hóquei
- Bola de mão
- Ginástica (exercícios de solo)
- Lançamento do dardo
- Pesca
- Boxe
- Levantamento de pesos
- Salto em altura
- Natação
- Remo
- Tiro com arco
- Ginástica rítmica
- Corrida de maratona
- Cabo de guerra
Os antigos egípcios praticavam vários desportos de equipa, muitos dos quais semelhantes aos desportos de equipa e aos desportos populares no Egipto de hoje. Exibições coordenadas de força, trabalho de equipa e espírito desportivo eram necessárias em muitos eventos competitivos e inspiravam intensas emoções nos espectadores, tal como hoje.
O hóquei em campo era um desporto popular entre os antigos egípcios. Usavam as folhas e os caules da palmeira para fazer sticks de hóquei, que tinham uma curvatura distintiva numa extremidade. A bola usada para jogar continha um núcleo de papiro e um revestimento exterior de couro que vinha em várias cores.
Existem desenhos de 5000 anos de antigos egípcios a jogar à bola de mão nas paredes dos túmulos de Sacará. Para a bola ser leve e resistente, era construída em couro e cheia de fibras vegetais, feno, ou feita de plantas de papiro como as usadas no hóquei. Raramente servia para mais de um jogo.
Outro desporto de equipa competitivo popular era o cabo de guerra, embora ligeiramente diferente. As equipas formavam duas filas opostas de jogadores, e os companheiros à frente de cada fila puxavam os braços dos adversários, enquanto os companheiros agarravam a cintura do jogador à sua frente e puxavam até uma equipa arrastar a outra para além de uma linha.
Os desportos de campo e de pista, como o salto em altura, eram populares entre os antigos egípcios. Dois jogadores sentavam-se com as pernas estendidas à frente, um pé de um jogador sobre os dedos do outro. Se o terceiro jogador conseguia saltar além da barreira, os dois sentados elevavam a barreira pondo as palmas sobre os pés, e o terceiro tinha de saltar sem a tocar.
A luta no desporto egípcio antigo
A luta tem a melhor documentação visual de todos os desportos praticados pelos antigos egípcios. Diversas cenas de luta adornam os túmulos dos faraós do Médio Reino. Durante a XI dinastia, Baqet III serviu como governador ou chefe do nomo do Órix, um território do Alto Egipto. No seu túmulo antigo de cerca de 2000 a.C., um mural representa lutadores numa série de movimentos um após o outro.
Olhando-o como em sequência a fotogramas, o pormenor visual mostra uma narrativa de técnicas avançadas indicativas dos movimentos que vemos hoje nos campeões de UFC. No conjunto, o mural da luta no túmulo de Baqet III revela uma mistura de técnicas de artes marciais, derrubes a uma e a duas pernas, e o que seria considerado judo moderno.
Como gregos e romanos, os antigos egípcios praticavam a luta nus. Contudo, a luta nua foi abandonada durante o Novo Reino à medida que se tornava cada vez mais um desporto para espectadores. Os lutadores egípcios usavam uma peça modelada sobre a dos soldados, ligando o desporto ao mesmo respeito obtido combatendo em batalha. As competições de luta faziam parte do uso do Novo Reino de celebrar ou marcar ocasiões com o faraó presente a supervisionar o encontro.
A luta sob Ramsés III
No templo de Ramsés III em Medinet Habu há um mural que representa a luta do tempo deRamsés II. O encontro mostra luta egípcia e núbia, e um público composto pela corte de Ramsés que observa é considerado uma das mais antigas representações do desporto.
Diplomatas núbios estão no mural entre os presentes que olham enquanto um compatriota tenta sobrepujar o outro. Este mural representa uma demonstração simbólica da superioridade do Egipto sobre os seus vizinhos regionais, pois a Núbia tinha sido conquistada durante o Médio Reino.
Luta, combate com paus e outras formas de desporto de contacto eram populares também durante o Novo Reino. Amplamente representada nos túmulos antigos e citada na literatura histórica, a luta permaneceu um desporto popular no Egipto durante milhares de anos. Permaneceu o desporto preferido da região após a conquista grega do Egipto em 332 a.C.
Os romanos conquistaram o Egipto 300 anos depois, em 30 a.C., e a luta permaneceu um elemento ritual das celebrações. As práticas de luta mudaram ligeiramente após a conquista romana, formalizando-se com mais regras contra os movimentos agressivos para poder ser gozada como desporto de espectadores para públicos de arena.
Desporto egípcio antigo: boxe e combate
O boxe também era popular, pois é representado na arte egípcia antiga. Uma cena de boxe egípcio antigo aparece numa escultura datada de cerca de 1350 a.C. em Tebas, que servia de capital do antigo Egipto. Três pares de pugilistas e o próprio faraó estão entre os espectadores na escultura. Os arqueólogos descobriram pugilistas, lutadores e combatentes com paus nos túmulos da XVIII dinastia egípcia (1570-1320 a.C.).
Os nobres não só praticavam desporto, mas também o gozavam como espectadores, como todos os outros. As actividades de combate rápido estavam entre os desportos aquáticos mais populares, em que duas pessoas combatiam as ondas do Nilo numa pequena embarcação. Remo e natação, luta e lançamento do dardo eram desportos igualmente populares para os espectadores.
Caça e pesca eram passatempos populares no antigo Egipto, tal como hoje. Nos pântanos circundantes do Nilo, os antigos egípcios usavam várias tácticas para capturar peixes como desporto e como meio de pôr comida na mesa. Os pescadores egípcios utilizavam um anzol e uma linha feitos de osso e fibras vegetais entrelaçadas para capturar os peixes.
Caça, pesca, remo e tiro com arco influenciaram o desenvolvimento de outros desportos e foram úteis também em combate e nas expedições militares. Segundo os arqueólogos, o dardo moderno diz-se ter evoluído tanto da caça com a lança como das técnicas dos lanceiros militares derivadas das práticas dos antigos egípcios.
Desporto e celebrações no antigo Egipto
Os eventos desportivos eram de facto uma componente dos ritos egípcios antigos e das festas religiosas em honra dos deuses. Para celebrar a vitória do deus Hórus e a vitória da harmonia e do equilíbrio sobre as forças daqueles que buscavam a desordem sob o deus Seth, os participantes tipicamente encenavam batalhas imaginárias entre os crentes de Hórus e os do deus Seth.
Os egípcios preferiam eventos atléticos organizados como boxe e esgrima com paus. As corridas de maratona eram actividades significativas, sobretudo no aniversário do faraó ou nas festividades cerimoniais. Durante estas celebrações, o faraó corria uma maratona em torno dos templos perante as multidões. Servia para demonstrar a sua força física e a capacidade de governar usando tanto as habilidades físicas como as cerebrais.
A importância da saúde física para a capacidade de um faraó de governar reflectia-se na festa Heb-Sed, realizada após os primeiros trinta anos de reinado de um rei; a festa devia rejuvenesê-lo. A festa media a capacidade do faraó de completar várias provas de habilidade e resistência, incluindo o tiro com arco.
As mulheres combativas do antigo Egipto
Durante o Novo Reino, os príncipes eram muitas vezes nomeados generais do exército egípcio e esperava-se que comandassem campanhas importantes e mostrassem habilidade e força. Impelidos a exercitar-se regularmente, a popularidade de um príncipe entre os súbditos e os companheiros de armas baseava-se nas suas capacidades físicas.
A história de Snefru e a Jóia Verde ocorreu durante o reinado do faraó Snefru e está registada num papiro antigo do Segundo Período Intermédio (1782-1570 a.C.). O texto revela quanto os antigos egípcios veneravam o desporto e estavam interessados na participação real no desporto e na actividade desportiva cerimonial.
Este relato épico representa um tempo em que o faraó Snefru sofria de depressão. Um dos seus principais conselheiros sugere que deveria ir de barco no lago para restabelecer mente e espírito. A história continua contando que o faraó seguiu o conselho do seu conselheiro e passou a tarde a ver uma exibição de vinte remadoras.
A natação no antigo Egipto
Natação, navegação e jogos fluviais estavam entre os passatempos preferidos dos egípcios, pois o Nilo era uma parte tão essencial das suas vidas. Os antigos egípcios são mostrados nos hieróglifos como grandes nadadores e atletas aquáticos.
Os primeiros manuscritos que se referem à actividade da natação foram descobertos nas pirâmides dos primeiros faraós antigos. Muitas das representações de natação encontradas nos túmulos egípcios antigos são de natureza religiosa e explicam como o defunto deve viajar para encontrar o paraíso após a morte. O faraó deve nadar até uma ilha onde pode ser recolhido por um barco e continuar a viagem. Estas imagens indicam que a natação era uma habilidade conhecida e era necessária para se preparar para o além.
A natação é uma habilidade de sobrevivência e, como preparação para o além, parece ter sido reservada à realeza ou aos membros da classe superior. Entre 2155 e 2016 a.C., os duques territoriais do Egipto lutavam entre si pela supremacia política. Era vital para eles demonstrar os laços estreitos com o faraó como símbolo de prestígio.
Um membro desta sociedade real descreve na sua biografia quão afortunado era quando criança por frequentar uma escola que lhe dava lições de natação, fazendo-o parecer igual aos reais aos olhos dos outros.
Os membros mais ricos da sociedade, incluindo as famílias reais e o faraó, equipavam a si próprios e as suas casas com piscinas privadas, permitindo-lhes gozar de água doce. As piscinas eram necessárias pois as águas do Nilo não eram ideais para os nadadores da classe superior. As piscinas dos antigos faraós são muitas vezes citadas em literatura, projectos arquitectónicos e expressões artísticas que descrevem o seu uso para a recreação e como espaço para recuperar no fim de um dia quente.
Desportos praticados pelas mulheres no antigo Egipto
Acrobats femininas exibiam-se para faraós e realeza egípcia, e o antigo Egipto é o lugar onde se encontra a primeira prova física conhecida da ginástica. Segundo as representações nos túmulos antigos, as acrobatas entretinham a nobreza egípcia e exibiam-se nas celebrações cerimoniais.
As rainhas não eram menos conscientes do valor da atlética em todos os aspectos da sociedade, pois a rainha Hatshepsut da XVIII dinastia fez-se representar numa pose semelhante no Heb Sed numa parede do seu santuário no templo de Karnak.
A dança parece ter sido um desporto de espectadores em que as mulheres se exibiam nos banquetes reais e nas celebrações cerimoniais. Os homens dançavam usualmente com outros homens, e as mulheres com outras mulheres. Nas casas privadas e no palácio, cantores, solistas ou grandes coros acompanhados de instrumentos musicais entretinham os visitantes e encorajavam uma atmosfera festiva para dança e celebração.
Além do físico: os jogos de tabuleiro egípcios antigos
Os desportos tiveram um importante significado cultural e social no antigo Egipto 2.000 anos antes de se realizarem os primeiros Jogos Olímpicos na antiga Grécia. Vários entre os faraós mais conhecidos demonstraram o seu domínio realizando e participando em actividades físicas como tiro com arco, atlética e corridas de carros.
Um dos primeiros jogos de tabuleiro conhecidos foi o senet, preferido do jovem faraó Tutancâmon e da rainha Nefertari, esposa de Ramsés II. Jogava-se já cerca de 3100 a.C., quando a I dinastia egípcia estava apenas a começar a declinar do poder. As tábuas de senet eram longas e esguias, com 30 casas dispostas em três filas de 10.
Como funcionava o senet?
A dois jogadores era dado um número igual de peões, geralmente de cinco a sete, e deviam competir até ao fim da tábua com todas as peças; os participantes lançavam paus em vez de dados para determinar o número de casas a mover. Os jogadores podiam tentar obstaculizar o adversário, impedindo-o de avançar ou mesmo mandando-o para trás na tábua, como na maioria dos jogos estratégicos sofisticados.
O senet evoluiu de um passatempo com pouco significado religioso para um símbolo do mundo subterrâneo, com as suas casas que representavam deuses-chave e figuras religiosas representativas de eventos no além.
A dança para lazer
Os antigos egípcios gozavam de diversas actividades de lazer que exercitavam a mente além do corpo. Jogos para crianças, jogos de tabuleiro e outras actividades faziam do jogo uma parte importante da vida no antigo Egipto. A dança era gozada por todas as classes e pelos membros da sociedade egípcia antiga e era incluída como parte essencial de ritos e celebrações.
Já existiam companhias de dança e eram contratadas para se exibir em ocasiões cerimoniais ou celebrativas. No antigo Egipto havia seis tipos de dança: danças de harém, danças de festa, dança religiosa e não religiosa, dança de batalha e dança de rua. O desenho geral de uma festa não é demasiado diferente do que temos hoje.
Algumas damas de harém abastadas eram instruídas em música e dança. Exibiam-se para rei e rainha, acompanhadas por músicos masculinos que tocavam guitarras, liras e harpas. Cenas de executantes ligados aos funerais aparecem nos túmulos antigos do Antigo Reino e são as primeiras representações de dança no antigo Egipto.
Conclusão
Cobrimos muita história sobre os desportos do antigo Egipto. Reveja cinco dos desportos principais praticados no antigo Egipto:
- A luta era vista e gozada por muitos membros da sociedade e está representada nos murais nos túmulos antigos dos faraós.
- Pesca e remo eram praticados por desporto e sustento.
- Algumas das formas mais antigas de ginástica remontam ao período dos antigos egípcios e eram uma parte importante de cerimónias e celebrações.
- O hóquei jogava-se de modo semelhante a como ainda se joga hoje.
- Os reais mostravam a própria força nas provas de tiro com arco e nas exibições cerimoniais de força.
Agora sabe que a competição amigável e as exibições de habilidades físicas têm sido gozadas durante muitos séculos. Os desportos egípcios antigos de ontem são como os desportos de hoje. Em que desporto do antigo Egipto participaria?














