Baibars: o sultão que combateu tenazmente pela independência do Egipto
Baibars é um dos sultões mais importantes do Egipto, um guerreiro mameluco e uma figura influente no Médio Oriente durante o século XIII. O governo de Baibars foi marcado por guerras constantes com os cruzados cristãos enviados da Europa e com as invasões mongóis do Oriente. Os exércitos mamelucos de Baibars conseguiram impedir ambos estes inimigos de estender ulteriormente a sua influência para oeste no território islâmico.
Continue a ler para conhecer o governo e as empresas heroicas do sultão Baibars.
O sultão Baibars
O sultão Baibars nasceu na terra dos turcos quipchacos em 1223 d.C. e morreu a 1 de Julho de 1277 d.C. em Damasco, na Síria. O seu nome completo era al-Malik al-Ẓāhir Rukn al-Dīn Baibars al-Bunduqdārī, ou Al-Ṣāliḥī, que em turco significa «grande pantera» ou «senhor pantera». Usava frequentemente esta imagem no seu brasão, ou emblema.
Durante o seu reinado como sultão, pôs a imagem de uma pantera na moeda e nos edifícios de todo o império. Algumas representações mostravam também uma pantera que persegue um rato, o que poderia representar as suas vitórias militares contra os cruzados.
Baibars, que reinou como sultão de 1260 a 1277 d.C., é considerado o mais importante dos sultões mamelucos do Egipto e da Síria. É conhecido sobretudo pelas suas campanhas militares contra os Mongóis e os cruzados, juntamente com muitas reformas internas que reforçaram a influência egípcia e mameluca na região.
No mundo árabe, um relato popular da sua vida, chamado a «Sirat Baibars», ainda é popular hoje.
Primeiros anos
Os historiadores discutem ainda sobre o lugar exacto de nascimento de Baibars: alguns sustentam que nasceu a norte do Mar Negro, na Crimeia, e outros que nasceu no Dasht-I Kipchak, situado hoje entre os rios Volga e Ural.
Baibars era um quipchaco, um grupo étnico de nómadas e pastores turcos que vivia na estepe euroasiática. Dentro do grupo étnico quipchaco pertencia à tribo Barli, que se estabeleceu no Segundo Império búlgaro durante a infância de Baibars após ter fugido dos exércitos mongóis invasores.
Esta migração não salvou os Barli dos exércitos mongóis, pois os Mongóis invadiram a Bulgária e massacraram os colonos Barli em 1242 d.C. Baibars assistiu à morte de ambos os pais durante o massacre e foi vendido como escravo num mercado de escravos de Sīwās no Sultanato de Rum, na actual Turquia. Este episódio criou um profundo ódio pelos Mongóis.
Foi depois vendido a um rico egípcio de nome Alā’ al-Dīn Īdīkīn al-Bunduqārī na actual Síria, que o levou ao Cairo, no Egipto. Os escravos de língua turca eram uma posse preciosa e geralmente eram usados como tropas no exército. Baibars passou para a posse do sultão al-Ṣāliḥ Najm al-Dīn Ayyūb da dinastia aiúbida do Egipto após al-Bunduqārī ter sido preso.
A ascensão de Baibars no exército
Sob o controlo do sultão, Baibars foi enviado a uma ilha no rio Nilo para treinar no exército egípcio e revelou-se rapidamente um soldado hábil. Após a conclusão do treino militar, comandou as guardas pessoais do sultão. Baibars pode ter combatido no exército egípcio durante as consequências da Sexta Cruzada, na vitoriosa batalha de La Forbie, em 1244 d.C.
Baibars subiu rapidamente de posto e tornou-se um comandante militar do exército aiúbida, obtendo a primeira vitória defendendo a cidade de Al-Manṣūrah em 1250 contra o exército cruzado de Luís IX.
Durante esta batalha decisiva, Baibars mostrou as suas capacidades de brilhante táctico militar. Abriu estrategicamente as portas da cidade e permitiu às tropas cruzadas precipitar-se naquilo que acreditavam ser uma cidade deserta.
Uma vez que os cavaleiros foram aprisionados dentro das portas da cidade, foram apanhados numa emboscada e cercados de todas as direcções tanto pelos seus guerreiros mamelucos como pela população citadina. As tropas dos cavaleiros templários sofreram perdas devastadoras, com vários importantes líderes mortos em batalha.
Os primeiros passos na política: derrubar o sultão
Após ter participado na batalha de Fariskur — a batalha final e principal da Sétima Cruzada — Baibars desempenhou um papel de primeiro plano na derrubada mameluca do novo sultão, Tūrān Shāh, que seria o último sultão aiúbida.
Este assassinato provocou confusão e agitação de massa em todo o Egipto, e a viúva do sultão assassinado tornou-se sultana. Baibars e outros líderes mamelucos foram forçados a fugir para a Síria até 1260 d.C., quando terminou o reinado do primeiro sultão mameluco, Aybak.
Após isso, os fugitivos puderam regressar quando o terceiro sultão, al-Muẓaffar Sayf al-Dīn Quṭuz, assumiu o poder. Qutuz deu aos fugitivos muitas posições de comando no exército e no governo.
A batalha de Ain Jalut, ou «Fonte de Golias»
Em Setembro de 1260 d.C., Baibars conduziu um exército mameluco à vitória contra as forças mongóis na batalha de Ain Jalut. O lugar era também chamado «Fonte de Golias», pois se dizia ser o lugar da história de David e Golias do livro de Samuel da Bíblia cristã.
Como tal, esta batalha teve um importante valor simbólico. A liderança de Baibars desempenhou um papel decisivo na batalha, pois tinha vivido na zona durante o exílio do Egipto e conhecia bem o terreno.
Usando uma táctica de batalha preferida pelos Mongóis, a «falsa retirada», Baibars conduziu uma pequena unidade de tropas mamelucas a encontrar o exército mongol enquanto o resto das suas tropas se escondia oculto entre árvores e colinas atrás de si. Baibars e a sua pequena unidade mantiveram os Mongóis ocupados durante horas com pequenos ataques repetidos e falsas retiradas, atraindo-os para as tropas mamelucas escondidas.
Quando os Mongóis caíram na armadilha e se precipitaram para os homens de Baibars, as tropas mamelucas escondidas lançaram-se sobre os Mongóis, atacando de todos os lados com cavalaria e arqueiros. Apesar desta armadilha bem calculada, os Mongóis combateram através do assalto e por fim quebraram a ala esquerda das tropas mamelucas.
Só depois de o general mongol ter sido morto a batalha começou a deslocar-se a favor dos mamelucos, terminando com uma retirada mongol para Besian, onde foram decisivamente derrotados.
Esta vitória deteve de facto a expansão para oeste dos Mongóis nas terras islâmicas. Muitos importantes líderes militares mongóis foram mortos em batalha e Baibars distinguiu-se pela liderança militar e a coragem.
A ascensão ao sultanato
Após a vitória na Fonte de Golias, Baibars esperava ser recompensado com o governadorado da cidade de Alepo. Em vez disso não recebeu nada do sultão Qutuz, que se estava a tornar nervoso com a influência crescente de Baibars.
Baibars, com a ajuda de outros mamelucos, ideou uma conspiração de assassinato contra Qutuz. Durante o trajecto através da Síria, Baibars pediu ao sultão uma mulher mongol prisioneira como recompensa pela vitória. Quando o sultão aceitou, Baibars beijou-lhe a mão, que era o sinal para o assassinato. Um grupo de mamelucos armou uma emboscada a Qutuz, e Baibars apunhalou-o no pescoço.
Baibars tornou-se imediatamente o quarto sultão mameluco do Egipto após o assassinato.
Assumido o trono do sultanato, Baibars empenhou-se imediatamente em eliminar qualquer dissenso ou resistência ao seu governo. A sua oposição mais séria provenia de um nobre mameluco de nome Sinjar al-Halabi, que controlava a cidade de Damasco. Baibars marchou com as suas tropas a Damasco e sedou rapidamente uma revolta guiada por Halabi, consolidando assim o controlo da cidade.
Baibars teve também de decidir o que fazer dos Aiúbidas, que dissentiam do seu governo. A questão foi resolvida pacificamente, pois Baibars permitiu-lhes controlar as respectivas áreas desde que o reconhecessem como sultão.
O sultão turco
Como turco, Baibars era caracterizado por uma carnacção muito mais clara dos egípcios que agora se encontrava a governar. Era descrito como uma figura alta com um rosto largo e olhos pequenos, dos quais um tinha uma catarata. Algumas descrições sustentam até que tinha os olhos azuis.
Para além da estreita adesão ao Islão e da habilidade no campo de batalha, era um apaixonado desportista que amava as actividades atléticas.
Quando Baibars assumiu o trono, um dos seus objectivos principais era replicar o sucesso de Saladino, o primeiro sultão aiúbida, que conduziu uma guerra santa contra os cruzados na Síria. Este objectivo de expulsar completamente os cruzados da região derivava em grande parte da sua aliança parcial com os exércitos mongóis, juntamente com a ameaça de uma ulteriore difusão da influência cristã no território muçulmano.
Baibars dedicou-se imediatamente a reforçar o seu exército reconstruindo os fortes defensivos destruídos pelos Mongóis e construindo o arsenal militar egípcio.
Baibars: um hábil diplomata e político
Baibars mostrou também grande habilidade como diplomata e político, unindo Egipto e Síria num único poderoso Estado islâmico e estabelecendo relações amigáveis com reinos poderosos bem para além do Médio Oriente.
Baibars procurou estabelecer relações diplomáticas com o Império bizantino, enviando enviados a Constantinopla para encontrar Miguel VIII Paleólogo. Isto estabeleceu relações amigáveis entre Baibars e os Bizantinos, de modo que mercadores e embaixadores egípcios podiam navegar através do Helesponto e do Bósforo.
Em 1261 d.C. foi enviado um enviado à Sicília e seguiram-se outras viagens à Itália. Em 1264 d.C., Carlos de Anjou enviou uma colecção de dons ao Cairo. Baibars teria também estipulado tratados comerciais com Jaime I de Aragão e Afonso X de Leão e Castela.
A nível interno, Baibars trouxe imensas melhorias às condições de vida em todo o Egipto. Melhorou os portos, construiu canais e reduziu notavelmente o tempo necessário para que o correio fosse do Cairo a Damasco. No Cairo construiu tanto uma grande mesquita como uma escola religiosa e foi o primeiro sultão a nomear grandes juízes que representavam as quatro escolas do direito islâmico.
Campanhas iniciais contra os cruzados
Em 1263 Baibars conduziu o seu exército a Acre, que era considerada a capital do resíduo do Reino de Jerusalém. As suas tropas cercaram a cidade, mas por fim decidiram atacar em vez disso Nazaré. O período de 1265 a 1271 foi marcado por incursões quase contínuas sobre os cruzados da região, que encontraram a tenaz resistência de Baibars.
A batalha de Arsuf
A cidade de Arsūf, controlada pelos cavaleiros hospitalários, rendeu-se a Baibars em 1265. A cidade era defendida por 270 cavaleiros e caiu sob o cerco das tropas de Baibars após 40 dias. Baibars convenceu os cavaleiros a renderem-se prometendo a sua imediata libertação, mas em vez disso quebrou logo a promessa, tomou-os prisioneiros como escravos e queimou o castelo da cidade até aos alicerces. Baibars depois tomou as cidades cruzadas de Atlit e Haifa e queimou as suas cidadelas até aos alicerces.
O cerco de Safed
Em Julho de 1266 Baibars cercou e tomou a cidade de Safed aos cavaleiros templários. Safed tinha sido tomada pelas tropas do sultão Saladino em 1188, mas o Reino de Jerusalém tinha recuperado a cidade em 1240.
Baibars concedeu aos cavaleiros em inferioridade numérica que defendiam a cidade uma passagem segura para a cidade cristã de Acre após a rendição. Em vez de arrasar as fortalezas, Baibars escolheu reconstruir e melhorar as fortificações devido à posição estratégica da cidade.
As empresas de Baibars na Arménia cilícia
Mais tarde nesse mesmo ano, Baibars invadiu a Arménia cilícia, um país cristão que tinha sido dado ao Império mongol pelo rei Hethum I. As forças mamelucas derrotaram as forças em inferioridade numérica de Hethum na batalha de Mari. Um saque brutal teve lugar às mãos dos mamelucos após a batalha, enquanto destruíam três das cidades mais importantes da Cilícia e o seu porto, Ayas.
Quando o rei chegou com reforços mongóis, as principais cidades estavam destruídas e foi forçado a negociar com Baibars pelo regresso do filho, capturado durante a batalha de Mari. Isto conduziu os mamelucos a obter o controlo de muitas das importantes fortificações de fronteira da Arménia. Em 1267, Baibars tinha de facto conquistado a Cilícia e obtido o controlo da cidade de Acre.
A tomada de Antioquia e Jafa
Baibars cercou e tomou a cidade de Antioquia em Maio de 1268, que era uma cidade de vasta importância na região. A rendição da população de Antioquia a Baibars foi um dos massacres mais brutais de todas as cruzadas.
Apesar de ter prometido deixar com vida os habitantes da cidade, Baibars matou grande parte da população após a rendição, incluindo mulheres e crianças. Segundo os relatos do massacre, os padres cristãos foram mortos nas igrejas e os sobreviventes foram vendidos como escravos.
Mais tarde nesse mesmo ano, Baibars tomou a cidade de Jafa em apenas 12 horas. Enquanto os mamelucos massacravam grande parte da população da cidade, Baibars permitiu aos defensores da cidade irem livres. Conquistou Ascalão e Cesareia pouco depois.
As batalhas finais contra os cruzados
Em 1271 Baibars concentrou as suas tropas em pequenas fortificações cristãs no Levante, incluindo os castelos de Chastel Blanc e Krak des Chevaliers. O Krak des Chevaliers foi cercado pelos mamelucos durante 10 dias, com a rendição final dos defensores e dos habitantes. Baibars poupou as suas vidas e converteu a capela do castelo numa mesquita.
Baibars tentou depois cercar Trípoli mas escolheu abandonar o cerco quando o príncipe Eduardo de Inglaterra chegou a Acre, aliando-se com os Mongóis e iniciando a Nona Cruzada. Baibars escolheu proclamar uma trégua tanto com o príncipe Eduardo como com Trípoli, embora haja provas de que tentou fazer assassinar Eduardo.
No fim de 1271, os cruzados tinham sido de facto derrotados e não seriam capazes de recuperar os territórios perdidos durante a vida de Baibars.
Durante o seu reinado, o sultão guerreiro eliminou também uma seita fanática na Síria chamada os Assassinos, uma seita nizarita do Islão xiita que conduzia assassinatos encobertos em toda a região. Em 1273, Baibars tinha virtualmente eliminado todos os seus membros na Síria.
A campanha africana
Em 1272 Baibars reconduziu a atenção militar ao continente africano para invadir o Reino de Macúria, que tinha saqueado a cidade de Aidhab no Egipto.
Para reforçar a segurança das fronteiras sul e oeste do Egipto, Baibars conduziu pessoalmente expedições na Núbia e Líbia, revelando-se um líder militar de grande coragem durante a campanha de quatro anos contra os macurianos.
Em 1276, toda a Núbia estava sob o controlo de Baibars. Os núbios foram forçados a pagar o tributo da jizya, um imposto imposto aos não muçulmanos, mas foi-lhes permitido manter a própria religião. Baibars instalou pessoalmente um novo rei da sua escolha, de nome Shakanda, tornando a Macúria um reino vassalo.
As batalhas de Baibars contra os Mongóis
Outro dos principais objectivos do sultão era manter os exércitos mongóis fora da região. Esperava aliar-se com os Mongóis da Horda de Ouro, situada na Rússia meridional, para combater contra os Mongóis da Pérsia.
Ao longo dos seus 17 anos de governo, combateu nove batalhas contra os Mongóis do Ilcanato, incluindo a batalha de Elbistan. Em Abril de 1277, Baibars marchou através da Síria no Sultanato seljúcida de Rûm controlado pelos Mongóis para encontrar as forças mongóis em Elbistan. A batalha foi feroz e dispendiosa para ambas as partes, e os mamelucos por fim superaram as forças mongóis.
Com a possibilidade de uma nova ameaça mongol iminente, Baibars decidiu reconduzir as suas tropas à Síria, pois as suas linhas de abastecimento estavam sobrecarregadas.
Morte e herança
Baibars morreu em Damasco a 1 de Julho de 1277. Existe uma certa controvérsia sobre como Baibars morreu: alguns sustentam que bebeu uma taça de veneno destinada a outra pessoa. Outros sustentam que morreu por uma ferida de batalha ou por uma doença.
Baibars foi sepultado sob a cúpula da Biblioteca Al-Ẓāhirīyah, que tinha fundado anos antes.
O reinado de Baibars não só consolidou o exército mameluco como força dominante na região, mas também deu início a um período de predomínio político mameluco na região do Mediterrâneo oriental.
Baibars lançou as bases para a eventual expulsão permanente dos cruzados do Levante e pôs em segurança a área de ulteriores invasões mongóis. Realizou também enormes passos políticos durante a sua vida que reforçaram o império egípcio tanto no interior como no exterior.
Conclusão
Neste artigo tratámos os pontos salientes da vida do sultão Baibars. Revejamos os pontos centrais para o ajudar a recordá-los:
- Baibars foi vendido no exército egípcio como escravo. Na época, os escravos de língua turca eram soldados ideais.
- Subiu rapidamente de posto no exército como soberbo estratega militar.
- Obteve o poder como sultão do Egipto após o assassinato do sultão Qutuz.
- Baibars melhorou o exército e as infra-estruturas egípcias e criou relações diplomáticas com potências bem para além do Médio Oriente.
- Infligiu derrotas decisivas aos cruzados e aos Mongóis, detendo a sua expansão no mundo islâmico.
- O seu governo afirmou o predomínio dos mamelucos na região do Mediterrâneo oriental sobre a qual os seus sucessores construiriam.
Baibars é uma figura essencial na história do Médio Oriente medieval. A sua liderança — tanto no campo de batalha como na política — moldou significativamente a região e estabeleceu o predomínio egípcio para os anos vindouros.













