Eliwlod, sobrinho do rei Artur
Eliwlod é um personagem menor nas lendas arturianas conhecido só de poucas fontes galesas. Apesar deste papel menor, estava estreitamente aparentado com o rei Artur, sendo seu sobrinho. Recebe também alguns louvores notáveis e são-lhe atribuídas certas habilidades especiais. Neste artigo examinaremos de perto tudo o que sabemos sobre esta figura obscura.
Quem era Eliwlod?
Eliwlod era o sobrinho do rei Artur na tradição galesa. Era o filho de Madoc, filho de Uthyr Pendragon. Portanto era o sobrinho de Artur através do irmão de Artur.
Não se sabe muito de Eliwlod, uma vez que aparece só em poucas fontes. Não parece figurar de todo em fontes não galesas. Contudo, é provável que originariamente tivesse muito mais proeminência na tradição arturiana galesa do que as poucas fontes em que aparece agora sugeririam superficialmente.
As referências a ele sugerem que tivesse uma relação estreita com Artur. É até chamado o seu «sobrinho amado». Além disso é mostrado ter sido um dos homens da corte de Artur. É também mostrado ter habilidades de mutação de forma, que é algo que outros membros da família de Artur têm na tradição galesa.
Nome
O nome desta figura aparece em várias formas diferentes nos registos disponíveis. A forma comumente usada pelas fontes modernas é «Eliwlod», mas por vezes usa-se «Eliwlad». Por exemplo, esta é a forma usada por Rachel Bromwich nos seus Trioedd Ynys Prydain.
Parece que a forma mais antiga atestada do seu nome seja «Eliwlat», daí a forma usada por Bromwich.
Em textos posteriores, como nas referências a ele por parte de poetas galeses medievais, o nome aparece como «Lliwlod» ou «Liwlod».
Família
Olhemos mais de perto para a família de Eliwlod como revelada na tradição galesa. Uma vez que era um parente estreito de Artur, sabemos o bastante sobre a sua família.
Pai
O pai de Eliwlod, como já mencionado, era Madoc. Era o filho do rei Uthyr Pendragon e portanto o irmão do rei Artur.
Este Madoc é aparentemente ainda mais obscuro do que o seu filho. Contudo, isto é provavelmente porque aparece em vários registos sem ser explicitamente identificado como o filho de Uthyr.
Por exemplo, com base em geografia e cronologia, é provável que o pai de Eliwlod, Madoc, possa ser identificado como o santo patrono de várias igrejas no País de Gales do Sul. Pode também provavelmente ser identificado como o Maidoc da Vida de São Teilo.
Há também prova de que Madoc possa ser identificado como uma figura que habitualmente é registada como «Morfryn». Em alguns registos, este nome aparece como «Madoc Morfryn». Era um príncipe importante do País de Gales do Sul, o que sustenta a conclusão de que deva ser identificado como Madoc o irmão do rei Artur.
Irmãos
Se a identificação de Madoc ap Uthyr com Madoc Morfryn é correta, como parece ser, então isto significa que Eliwlod tinha pelo menos dois irmãos. Um deles era Myrddin Wyllt, o famoso bardo que se tornou conhecido nas lendas arturianas como Merlim.
Myrddin é registado como tendo uma irmã, que seria naturalmente também a irmã de Eliwlod. O seu nome era Gwenddydd. Tanto Myrddin como a sua irmã Gwenddydd foram aparecer em contos arturianos não galeses, enquanto Eliwlod não.
Mãe
A mãe de Eliwlod é desconhecida. Podemos presumir que o seu pai, Madoc, teria casado com uma princesa de um reino vizinho, ou de um reino que estava em aliança com o reino de Artur.
A título de comparação, o rei Artur ele próprio é registado como tendo três mulheres. Uma delas era uma princesa da Bretanha (aliada de Artur); outra era uma princesa dentro do território de Artur ele próprio; e outra era uma princesa de Powys, um reino vizinho.
Portanto podemos assumir que o irmão de Artur provavelmente seguiu o mesmo esquema, casando com alguém de um reino vizinho ou aliado. A única pista de que a mãe de Eliwlod pudesse ter sido de mais longe é o facto de que há alguma prova de que Madoc era um marinheiro. Portanto está dentro dos limites da plausibilidade que pudesse ter viajado bastante longe antes de decidir casar-se.
Tios e tias
Dado que Eliwlod era o neto de Uthyr Pendragon, tinha vários tios e tias de relevo. Estes eram os irmãos e as irmãs de Madoc.
Exemplos notáveis incluem o rei Artur, Gwyar e Anna. Incluindo tios e tias por casamento, Eliwlod era também sobrinho do rei Lot de Lothian, do rei Urien Rheged e das três rainhas de Artur todas de nome Gwenhwyfar.
Eliwlod nos textos galeses
Eliwlod aparece em várias fontes diferentes. Algumas delas são só referências menores, mas uma delas é de longe mais substancial do que as outras.
Artur e a águia
O texto principal em que Eliwlod aparece é um poema galês conhecido como Artur e a águia. Crê-se datar de cerca do mesmo tempo da composição de Culhwch e Olwen, ou cerca de 1100.
Neste poema, Eliwlod aparece a Artur na forma de uma águia e conversa com ele longamente. A habilidade de mutar de forma não é única a Eliwlod na tradição galesa. Um número de outras figuras da era arturiana são figuradas como tendo esta habilidade, incluindo Uthyr Pendragon.
Esta conversa desenrola-se no Vale de Coed Cernyw. Esta é quase certamente a atual Coedkernew no Gwent, País de Gales sudeste.
Neste longo poema, enquanto Artur e o seu sobrinho conversam, Artur não se apercebe inicialmente de que é Eliwlod. Pensa que seja simplesmente uma visão notável de uma águia. À medida que a conversa progride, a águia afirma ser Eliwlod.
Artur observa que Eliwlod está morto. Portanto é evidente que é o espírito de Eliwlod que lhe aparece na forma de uma águia.
Os dois depois conversam sobre vida e morte e sobre como a morte possa ser evitada. Eliwlod assegura a Artur que a morte é inevitável, mas pode evitar o Inferno sendo recto aos olhos de Deus. Artur declara-se poderoso, mas Eliwlod declara que só Deus é poderoso.
O papel de Artur nesta conversa é muito o de um rei cuja mentalidade é mais carnal do que espiritual. Eliwlod assume o papel de um conselheiro que molda a atitude de Artur (ou tenta fazê-lo, pelo menos) para estar mais concentrado na religião do que no poder e no prestígio no mundo.
Eliwlod nas tríades galesas
Eliwlod tem uma aparição nas tríades galesas. Esta é uma grande recolha de tradições medievais organizadas em grupos de três. Eliwlod aparece numa secção conhecida como Apêndice IV, conhecida também como Os Vinte e Quatro Cavaleiros da Corte de Artur.
A primeira destas tríades é intitulada «Três Cavaleiros da Língua de Ouro estavam na Corte de Artur». O terceiro destes três é listado como Eliwlod filho de Madoc filho de Uthyr. Sobre estes três, a tríade diz:
«Não havia nem rei nem senhor a quem aqueles fossem que não os escutasse; e qualquer missão que buscassem, desejavam-na e obtinham-na, de boa ou de má vontade.»
Segundo isto, Eliwlod era excecionalmente hábil no discurso. Era capaz de usar isto para adquirir qualquer coisa que quisesse.
Isto é coerente com o que é mostrado de Eliwlod no poema Artur e a águia. O mero facto de que Eliwlod é apresentado como educador de Artur é significativo. Além disso Artur refere-se ao excelente discurso de Eliwlod.
Num lugar, Artur refere-se a Eliwlod como «gentil no discurso». Noutro, refere-se a ele como «não pobre de discurso». Continua a descrever Eliwlod como «de discurso gracioso», «de discurso intrincado» e muitas outras variações. O ponto é claro. Eliwlod era de certo «da Língua de Ouro», exatamente como é descrito nas tríades galesas.
Referências menores a Eliwlod
Estas duas fontes constituem as fontes primárias para Eliwlod. Contudo é mencionado numa variedade de fontes posteriores, na maior parte poesia.
Por exemplo, Bleddyn Fardd, um bardo galês do século XIII, fez uma referência de passagem a Eliwlod. Tudur Aled, um bardo galês do século XV, comparou um certo falcão a Eliwlod, evidentemente uma referência à tradição desta figura lendária que se torna uma águia.
Eliwlod como Lancelote
Uma interessante teoria sobre Eliwlod que foi proposta há algum tempo é que apareça, de facto, em contos arturianos não galeses. Esta teoria liga-o à figura de Lancelote. Foi Thomas Gwynn Jones, um estudioso galês do início do século XX, que argumentou a favor deste laço.
Segundo T Gwynn Jones, a forma antiga «Eliwlat» poderia ter evoluído para «Elyflath». Esta, por sua vez, poderia ter evoluído para «Lancelot». O que escreveu a respeito era:
«Uma forma galesa de Lancelot é Eliwlad, que pode ser, na pronúncia e ortografia moderna, Elyflath, de que Lancelot é uma espécie de versão.»
Enquanto a primeira destas duas evoluções não é demasiado implausível, a segunda é claramente um salto bastante grande. Não há uma real justificação fornecida para este laço.
Além disso não há laço entre as duas figuras quando olhamos para as suas relações familiares ou para as suas atividades reportadas. Lancelote nunca assume o papel de Eliwlod em nenhum dos contos medievais. Não há rasto da história de Eliwlod que aparece a Artur como uma águia nas histórias de Lancelote.
O pai de Lancelote não tem qualquer relação com Madoc, o pai de Eliwlod e irmão do rei Artur. Não há simplesmente qualquer base para associar as duas figuras. Portanto a teoria de que o nome «Eliwlod» tenha algo a ver com «Lancelot» pode ser solidamente rejeitada.
Conclusão
Em conclusão, Eliwlod era o sobrinho do rei Artur, sendo o filho de Madoc ap Uthyr. Era conhecido como «da Língua de Ouro», referindo-se ao facto de que era muito hábil no discurso e capaz de usar esta habilidade para influenciar os outros e obter o que queria.
É provável que o pai de Eliwlod, Madoc, fosse idêntico a uma figura de nome Morfryn, tornando Eliwlod o irmão de Myrddin Wyllt e Gwenddydd. A sua aparição maior nos registos galeses é num poema em que aparece a Artur na forma de uma águia e lhe ensina que a morte é inevitável.
Fontes
Bartrum, Peter, A Welsh Classical Dictionary, 1993
Bromwich, Rachel, Trioedd Ynys Prydein: The Triads of the Island of Britain, 2014
Jones, Nerys Anna, Arthur in Early Welsh Poetry, 2019
Howells, Caleb, King Arthur: The Man Who Conquered Europe, 2019
Johnson, Flint, Origins of Arthurian Romances: Early Sources for the Legends of Tristan, the Grail and the Abduction of the Queen, 2012











