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Mauron, Conde de Worcester

Por Caleb Howells

Mauron de Worcester é uma personagem menor, mas intrigante, das lendas arturianas. É descrito como o conde de Worcester e diz-se que foi um dos parentes do Rei Artur. Desempenha também um papel importante num determinado conflito com os saxões, salvando Artur de um ataque que poderia ter sido fatal. Neste artigo, examinaremos esta personagem mais de perto e consideraremos as evidências de que pode ter sido uma figura histórica.

Fólio do Brut Tysilio, mostrando Mauron, conde de Worcester (Mor iarll Caer-rangon), na quarta e quinta linhas
Fólio do Brut Tysilio, mostrando Mauron, conde de Worcester (Mor iarll Caer-rangon), na quarta e quinta linhas

Quem Foi Mauron, Conde de Worcester?

Mauron, conde de Worcester, é uma figura cuja principal contribuição para as lendas arturianas é simplesmente figurar na lista dos aliados do Rei Artur. Contudo, em algumas fontes, é-lhe atribuído um papel mais ativo. É apresentado como alguém que serviu junto dos saxões como espião ao serviço de Artur.

Este papel de espião permitiu-lhe tomar conhecimento de um ataque planeado contra Artur por Baldulph, um líder saxão, durante o cerco de Artur a York. Mauron pôde informar o rei deste ataque pretendido, dando a Artur a oportunidade de enviar Cador da Cornualha para interceptar e derrotar Baldulph.

É depois disto que Mauron surge como conde de Worcester. Uma vez que obviamente não pode ter exercido o cargo de conde de um território britânico durante o seu serviço como espião nas fileiras saxãs, isto significa evidentemente que Artur o nomeou para essa posição depois da derrota de Baldulph.

Os registos que atribuem a Mauron um papel alargado apresentam-no também como parente de Artur. Portanto, embora os contos arturianos nos digam muito pouco sobre ele, dizem-nos o suficiente para podermos investigar com quem — se é que com alguém — ele pode ser identificado na tradição galesa e noutros registos.

Mauron nas Lendas Arturianas

Analisemos agora as aparições de Mauron nas lendas arturianas, começando pela sua primeira aparição inequívoca. Esta encontra-se na Historia Regum Britanniae de Godofredo de Monmouth, escrita por volta de 1137.

A Historia Regum Britanniae de Godofredo de Monmouth

Neste relato, que é a primeira narrativa detalhada da carreira do Rei Artur, há uma passagem em que Artur realiza um banquete em Caerleon, no sudeste do País de Gales. A este banquete assistem numerosos aliados de toda a Britânia. Alguns deles são grandes reis de reinos importantes, enquanto outros são duques e cônsules relativamente menores.

Na lista dos cônsules que assistem ao banquete, Godofredo refere:

“Mauron, de Worcester.”

Ele aparece em segundo lugar na lista, logo depois de Morvid de Gloucester e antes de Anaraut de Salisbury, com muitos outros listados depois. Por esta ordenação, poderia concluir-se que Mauron era um dos mais proeminentes entre os aliados menores de Artur.

Isto é tudo o que Godofredo diz explicitamente sobre Mauron.

O Papel Não Declarado de Mauron

Contudo, mais cedo no seu relato, ele faz referência a algo que relatos posteriores atribuíram a este governante de Worcester.

No início da carreira de Artur como líder militar contra os anglo-saxões, Godofredo descreve-o a cercar a cidade de York, uma importante fortaleza anglo-saxónica. Durante o cerco, o irmão do rei saxão cercado concebeu um plano. O seu nome era Baldulph, e encontrava-se na mesma região geral do país, mas aguardava reforços antes de atacar.

Godofredo explica que Baldulph planeava atacar Artur durante a noite, quando este menos o esperaria. Contudo, Godofredo diz então o seguinte:

“Mas Artur, tendo conhecimento do seu desígnio, enviou um destacamento de seiscentos cavaleiros e três mil homens de infantaria, sob o comando de Cador, duque da Cornualha, para o encontrar naquela mesma noite.”

Neste relato, não há explicação de como Artur veio a “ter conhecimento do seu desígnio”. Relatos posteriores afirmam que Artur tinha um espião no exército de Baldulph e, mais tarde ainda, encontramos a alegação de que esse espião era Mauron.

Portanto, embora Godofredo não mencione explicitamente Mauron aqui, ele implica a existência do papel que mais tarde lhe foi atribuído.

O Roman de Brut de Wace

Por volta de 1155, um escritor chamado Wace compôs uma versão poética do relato de Godofredo, intitulada Roman de Brut. Esta segue de perto a narrativa de Godofredo, embora seja um tanto alargada (por exemplo, Wace fornece a primeira menção à Mesa Redonda, referindo-se a ela na narrativa do banquete de Caerleon).

Curiosamente, na versão de Wace da lista da corte de Artur, parece que Wace usou um nome alternativo para Mauron ou então o corrompeu bastante. Wace escreveu:

“Morud, conde de Gloucester; e Guerdon, conde de Winchester. Anavalt veio de Salisbury.”

O primeiro e o terceiro condes mencionados correspondem ao primeiro e ao terceiro cônsules mencionados por Godofredo. O do meio, Guerdon, deve corresponder a Mauron. Não há mais ninguém na lista da corte de Godofredo com quem este possa corresponder, o que exclui a possibilidade de Wace ter simplesmente alterado a ordem dos aliados.

Além disso, o facto de ele ser chamado conde de Winchester pode ser tomado como uma correspondência com a posição de Mauron como cônsul de Worcester, dado que “Winchester” e “Worcester” são suficientemente semelhantes para que um se corrompa no outro. De facto, o Brut ligeiramente posterior de Layamon faz explicitamente de Mauron o conde de Winchester.

Portanto, pareceria que “Guerdon” é simplesmente o nome que Wace dá a Mauron. Em vez de ser um nome alternativo para a mesma figura, é provável que se trate apenas de uma corrupção particularmente má de “Mauron”.

O Papel Não Declarado de Mauron

Mais cedo no relato, na narrativa sobre o cerco de York, Wace escreveu:

“Ele contava cair sobre Artur de noite, quando ele estava desprevenido, e forçá-lo a levantar o cerco. Mas um habitante do país que espiara Baldulph a armar esta armadilha correu ao rei e deu-lhe conta do assunto.”

Segundo isto, “um habitante do país” — isto é, um britão — que espiava Baldulph tomou conhecimento do seu plano de atacar Artur de noite. Este espião foi então ter com Artur e informou-o. Isto é muito semelhante à narrativa de Godofredo, mas é mais explícito quanto à pessoa que descobriu o plano e o comunicou a Artur. Em contraste, Godofredo afirmou simplesmente que Artur “tinha conhecimento” do plano.

Abertura do Roman de Brut de Wace, manuscrito do final do século XII
Abertura do Roman de Brut de Wace, manuscrito do final do século XII

O Brut de Layamon

Por volta do ano 1200, um escritor conhecido como Layamon (ocasionalmente “Lawman”) escreveu o seu próprio Brut, baseado em grande medida na versão de Wace. É neste relato que vemos finalmente Mauron com um papel um pouco mais completo nas lendas.

No seu relato do cerco de Artur a York, Layamon descreve o mesmo acontecimento básico mencionado por Godofredo e Wace. Contudo, acrescenta mais informação. Ele explica:

“Baldolf tinha no seu exército um cavaleiro britão; ele era parente de Artur, chamado Maurin. Maurin afastou-se para o bosque, por entre bosques e campos, até chegar às tendas de Artur; e assim disse de imediato ao rei Artur: ‘Salve sejas, Artur, o mais nobre dos reis! Vim até aqui; sou do teu parentesco.’”

Maurin prosseguiu explicando o plano de Baldolf e insistindo junto de Artur para que enviasse Cador contra ele. Portanto, o resultado é o mesmo que em Godofredo e Wace, mas Layamon fornece mais informação sobre como esta notícia chegou aos ouvidos de Artur. Esta parece ser a primeira fonte que especifica Maurin, ou Mauron, como parente de Artur.

A segunda e última menção de Mauron por Layamon surge na lista da corte de Artur no banquete de Caerleon. Tal como em Godofredo, ele aparece em segundo lugar na lista de aliados secundários, depois de “Morvith” (o Morvid de Godofredo). Layamon refere-se a ele como:

“Maurm de Winchester.”

A grafia “Maurm” é provavelmente um erro por “Maurin”, a grafia usada anteriormente por Layamon. Além disso, notamos que o seu território é chamado Winchester, como em Wace, e não Worcester, como em Godofredo. Embora seja tentador concluir que Layamon retirou isto diretamente de Wace, isso não explicaria por que razão ele seguiu a grafia de Godofredo para o nome desta figura em vez da de Wace.

Brut Tysilio

Uma fonte galesa que menciona definitivamente esta figura é o Brut Tysilio. Trata-se de uma versão galesa da Historia Regum Britanniae de Godofredo de Monmouth. Muitos dos nomes ao longo do texto são alterados para serem mais familiares aos leitores galeses. Nalguns casos, os nomes são completamente mudados, evidentemente para manter a história em linha com a tradição galesa que Godofredo pode ter representado incorretamente.

No caso de Mauron, o texto do Brut Tysilio diz:

“E para lá veio também Morydd, conde de Kaerloyw; e Mor, conde de Kaer-rangon, e Anarawd, senhor de Amwythic.”

Como aqui se pode ver, é usada a mesma sequência de Godofredo de Monmouth. Nas posições um e três encontramos, respetivamente, Morydd e Anarawd, correspondendo às figuras mencionadas por Godofredo. Portanto, não há dúvida de que a figura entre elas se destina a corresponder ao Mauron de Godofredo.

Neste texto, o seu nome é simplesmente grafado “Mor”. Pode tratar-se de um caso em que Godofredo expandiu o nome desta personagem para o seu texto latino. Um exemplo disso seria o caso de Aldroenus, cujo nome aparece como “Aldwr” nos textos galeses.

Por outro lado, poderia ter acontecido que os escribas galeses tivessem abreviado o seu nome. Um exemplo disso é o caso de Llew ap Cynfarch, cujo nome se sabe, por outros registos, ter sido Lleuddun.

Nesta breve referência, o Brut Tysilio chama a Mor o conde de Kaer-rangon. Trata-se de Caerwrangon, o nome galês de Worcester. Portanto, a tradição galesa aparentemente concorda com esta localização para Mor, ou Mauron.

Poderá Mauron Ser Identificado na Tradição Galesa?

As lendas arturianas são, em última análise, baseadas na história dos galeses. Provêm de contos e registos galeses. As personagens das lendas arturianas que podem ser identificadas como figuras históricas podem ser vistas, quase sem exceção, nos registos galeses. Sendo assim, poderemos nós identificar Mauron, conde de Worcester, na tradição galesa?

Aparentemente, existe apenas um único testemunho da tradição galesa que se refere a uma figura pelo nome exato de “Mauron” ou “Mawron”. Este encontra-se no documento latino chamado Historia Brittonum, escrito por volta de 830. Este documento refere uma figura fundadora chamada Gloyw que supostamente estabeleceu Gloucester. Um dos seus filhos chamava-se Mauron.

Contudo, é impossível identificar o Mauron deste registo com o Mauron de Godofredo. A razão é que o relato de Godofredo se passa no século VI, enquanto Mauron, filho de Gloyw, teria vivido nos séculos III e início do IV.

Na realidade, parece provável que Mauron, o conde de Worcester, possa ser identificado quer como uma das figuras vistas nos registos galeses com o nome “Mor”, quer como uma daquelas registadas com o nome “Morien”.

Os Dois Mors da Tradição Galesa

Segundo o A Welsh Classical Dictionary de Peter Bartrum, pareceria que existem apenas duas figuras conhecidas como Mor nos registos galeses. Examinemos cada uma delas por sua vez.

Mar ap Ceneu

A primeira é a figura geralmente registada como Mar ap Ceneu. É sobretudo conhecido por ser o suposto pai de Arthwys, um dos candidatos a verdadeiro Rei Artur. Muitas fontes afirmam que ele era alternativamente conhecido como Maeswig.

Na realidade, porém, Maeswig era uma figura distinta de Mar. Aparentemente, eram pai e filho.

A ideia de que este Mar era o Mauron do relato de Godofredo é insustentável, dado que Mar ap Ceneu deve ter nascido por volta de 425. Estaria provavelmente já morto quando o Rei Artur nasceu.

Mar ap Glywys

O único outro Mor relevante conhecido da tradição galesa é Mar ap Glywys. Dado que Glywys foi um importante sub-rei do sudeste do País de Gales, governando toda a Glywysing (que é hoje o Glamorgan), os seus filhos eram figuras relativamente importantes. Contudo, quase nada se sabe sobre Mar.

Jesus College MS 20, fólio 34v, mostrando Mur, filho de Glywys, ao centro, Biblioteca Bodleiana, Oxford
Jesus College MS 20, fólio 34v, mostrando Mur, filho de Glywys, ao centro, Biblioteca Bodleiana, Oxford

Não obstante, numa base cronológica, ele é aceitável como o Mauron, aliado de Artur. Além disso, como príncipe do Glamorgan, pode ser razoável considerar Worcester suficientemente próxima para ele ser nomeado seu governante. Admite-se, contudo, que ainda fica bastante longe do que seria de esperar.

Além disso, existem fortes evidências de que Glywys foi a figura histórica por detrás da personagem arturiana Gorlois, o primeiro marido da mãe de Artur, Igerna. Sendo assim, Mor teria sido meio-irmão de Artur. Isto explicaria a referência a Mauron como parente de Artur.

Problemas com Esta Identificação

Contudo, existem algumas objeções a esta identificação. A primeira é que Worcester fica realmente bastante longe do Glamorgan para ter sido o território de um príncipe daquela região, embora não seja impossível.

Em segundo lugar, há razões para acreditar que Mar, ou Mur, ap Glywys deveria na verdade ser identificado como Morfryn. A razão é que um exame das evidências sobre Morfryn indica que ele foi efetivamente meio-irmão de Artur, o que indica que era filho de Glywys (se aceitarmos Glywys como o Gorlois histórico). Morfryn, porém, aparece noutro lugar na lista da corte de Godofredo (ver o artigo O Mistério de Madoc e Artegall, Irmãos do Rei Artur) e, portanto, não deveria ser identificado com o Mauron de Godofredo.

Em terceiro lugar, parece improvável que Mauron fosse simplesmente descrito como “parente” e “achegado” de Artur se fosse efetivamente seu meio-irmão.

Portanto, embora se trate de uma identificação possível, vejamos se existe uma identificação que faça mais sentido.

Os Moriens da Tradição Galesa

Examinemos agora os Moriens da tradição galesa. Existem três principais candidatos a Mauron de Worcester.

Morien de Glastonbury

Um Morien aparece na linha dos reis que governaram a região de Glastonbury. Era filho de Morfael ap Glast segundo o Harleian MS 3859. Peter Bartrum estima que a sua data de nascimento tenha sido por volta de 530. Nada mais se sabe sobre ele.

Problemas com Esta Identificação

Embora esta seja uma possibilidade interessante, as evidências disponíveis não a sustentam realmente. Por um lado, o seu nome aparece nas genealogias harleanas como “Morgen”. É muito improvável que este pudesse ter-se tornado “Mauron” para Godofredo. No seu caso, o “Morien” do galês moderno é quase certamente a forma correta.

Em segundo lugar, a data de nascimento estimada por Bartrum é quase certamente várias décadas demasiado recuada. Nada se sabe sobre esta dinastia, o que significa que as datas de cada figura têm de ser estimadas simplesmente contando para trás a partir da data provável da última figura, próxima da data de composição das genealogias.

Bartrum parece ter usado a implausivelmente longa duração média de geração de trinta e três anos. Quando a reduzimos para uma média mais realista de vinte e cinco anos (e algumas linhagens deste período parecem mostrar médias de apenas vinte anos), chegamos a uma data bem perto do final do século VI para o nascimento deste Morien.

Por fim, Glastonbury fica ainda mais longe de Worcester do que o Glamorgan.

Morien Mynog

Um candidato muito mais plausível é Morien Mynog. Ele aparece na enorme lista da corte de Culhwch and Olwen, um conto em prosa galês sobre Artur. Aparece também como um dos conselheiros de Artur num conto posterior em prosa galesa, The Dream of Rhonabwy.

Assim, Morien Mynog está firmemente estabelecido como aliado de Artur na tradição galesa. Isto coloca-o numa boa posição para ser o Mauron do relato de Godofredo.

Evidências de textos galeses indicam que ele era filho de March ap Meirchion. Este era o famoso Rei Mark da Cornualha, sobretudo conhecido pela lenda de Tristão.

Dado que o pai de March, Meirchion, pode muito provavelmente ser identificado como o filho de Glywys (o Gorlois histórico) com esse nome, isto faria de Morien um sobrinho-neto do Rei Artur por via do seu meio-irmão. Assim, ele teria sido um parente do Rei Artur, tal como Mauron dizia ter sido.

Quanto ao seu nome, a aparição mais antiga dele encontra-se em Culhwch and Olwen. Aí, aparece como “Moren”, sem qualquer evidência óbvia de que originalmente fosse “Morgen”. Portanto, a forma “Morien” nos textos modernos pode bem ser um pressuposto erróneo. Este nome poderia, em vez disso, ter provindo de uma forma mais próxima do “Mauron” de Godofredo.

Problemas com Esta Identificação

Embora à primeira vista pareça promissora, existem alguns problemas importantes com esta teoria. O primeiro está relacionado com a sua geografia.

O pai de Morien Mynog, March, estava particularmente associado à Cornualha e à Bretanha, embora o próprio Morien (sobre quem pouco se sabe diretamente) fosse supostamente o antepassado de uma tribo no extremo norte de Anglesey, no noroeste do País de Gales.

Com base nesta informação, a geografia não favorece a identificação de Morien Mynog como o Mauron do relato de Godofredo. A Cornualha fica longe de Worcester, e a Bretanha ainda mais longe. Anglesey, do mesmo modo, é uma residência improvável para o conde de Worcester.

Morien ap Iaen

Considerando tudo, a identificação mais provável do Mauron de Worcester de Godofredo é a de que ele possa ser identificado como Morien ap Iaen. Tal como o Morien anterior, ele aparece como um dos aliados do Rei Artur no conto Culhwch and Olwen.

Portanto, tal como Morien Mynog, temos evidências diretas da tradição galesa de que este Morien ap Iaen foi recordado como aliado de Artur, correspondendo assim a Mauron.

Quanto ao seu nome, aparece no texto como “Moren”, e não “Morien” nem “Morgen”. Portanto, este poderia certamente ser uma forma de “Mauron”.

Culhwch and Olwen, fólio 201v, mostrando Moren ap Iaen ao centro da terceira linha
Culhwch and Olwen, fólio 201v, mostrando Moren ap Iaen ao centro da terceira linha

Além disso, existe o facto crucial de o texto de Culhwch and Olwen declarar explicitamente o seguinte acerca de Morien e dos seus irmãos:

“Eram homens de Caer Dathal, do parentesco de Artur pelo lado [ou ‘do seu’] pai.”

Morien é explicitamente descrito como um dos parentes de Artur. De todos os Moriens considerados nesta investigação, parece que Morien ap Iaen é o único que se sabe ter sido descrito desta forma.

Problemas com Esta Identificação

A única objeção possível a esta identificação é o facto de Morien e os seus irmãos serem descritos como homens de Caer Dathal. Este nome de lugar parece corresponder a Caer Tathyl, uma localidade mencionada no Mabinogi e situada em Arfon, no noroeste do País de Gales.

Embora não fique tão a noroeste quanto Anglesey, ainda assim está a uma distância implausível de Worcester. Contudo, isto não carece de uma explicação possível.

É verdade que o texto galês do Brut Tysilio concorda com Godofredo em situar Mor, ou Mauron, em Caerwrangon, ou Worcester. Não obstante, existe sempre a possibilidade de se tratar de um erro.

Um lugar com um nome semelhante é Wrexham. No século XIII, este é registado como “Wyrcessham”. Não é demasiado distinto de “Wireceastre”, o nome de Worcester registado no século XI. Na verdade, a única grande diferença entre os dois é a terminação “ham” em vez de “tre”. À parte isso, as duas palavras parecem duas grafias diferentes do mesmo nome de lugar.

A possibilidade de nomes de lugares semelhantes serem confundidos vê-se no caso de Anaraut, a figura que vem depois de Mauron no relato de Godofredo. Enquanto Godofredo o faz cônsul de Salisbury, outras versões o associam a Shrewsbury.

Wrexham não fica muito longe de Arfon, apenas a dois dias de caminhada. Portanto, é razoável que Morien ap Iaen pudesse ter sido um governante daquele território.

Terá Mauron, Conde de Worcester, Existido Realmente?

Existe alguma evidência de que Mauron de Worcester (ou, como parece mais provável, Wrexham) tenha sido uma figura histórica?

A primeira observação é que, se a identificação do Mauron de Godofredo com o Morien ap Iaen de Culhwch and Olwen puder ser aceite como válida, isto melhora consideravelmente a probabilidade de ele ter sido histórico, em comparação com o que aconteceria se ele aparecesse pela primeira vez na obra de Godofredo.

Culhwch and Olwen foi provavelmente composto por volta de 1100, situando-o antes da Historia Regum Britanniae de Godofredo. Além disso, existe o facto importante de nenhuma das fontes mostrar influência da outra. Portanto, o facto de ambas parecerem referir-se à mesma pessoa fornece fortes evidências de que a tradição sobre esta personagem antecede substancialmente 1100.

Não obstante, poderemos nós realmente encontrá-lo em algum documento histórico? Embora as evidências não sejam definitivas, parece que sim.

Mawron, Bispo de Glastonbury

No A Welsh Classical Dictionary de Peter Bartrum, existe uma entrada para uma figura chamada “Mawron” por Bartrum. Ele foi bispo de Glastonbury no início do século VII.

O registo que o menciona é na verdade o De Antiquitate Glastoniensis Ecclesiae, escrito por Guilherme de Malmesbury no século XII. Neste registo, Guilherme cita uma carta (cartulary charter) da igreja de Glastonbury datada de 601.

Naturalmente, poderiam facilmente ser levantadas acusações contra a autenticidade desta carta, dada a sua preservação num documento de tão longo tempo depois da época de que alegadamente provinha. Não obstante, existem razões para a aceitar como legítima. A principal razão é que Guilherme não conseguiu fornecer o nome do rei da Dumnónia, pois este estava ilegível.

Isto sugere fortemente que a carta realmente existia e que era antiga. Mesmo que o documento citado por Guilherme não remontasse efetivamente ao século VII, era claramente de séculos anteriores ao seu próprio tempo.

Portanto, existem boas razões para aceitar Mawron de Glastonbury como uma figura histórica. A significância disto é que ele aparenta ter tido o nome certo e vivido na época certa para ser a figura histórica por detrás da personagem de Mauron de Worcester.

Como Mawron de Glastonbury Corresponde a Mauron de Worcester

Primeiramente, consideremos o nome. Embora Peter Bartrum escreva o seu nome como “Mawron”, a carta citada por Guilherme de Malmesbury grafa-o efetivamente “Mauuron”. É óbvio que este é o mesmo nome que o Mauron de Godofredo.

Embora alguns possam objetar, por razões linguísticas, a que este Mawron histórico seja identificado como Morien ap Iaen, estas objeções linguísticas não têm muito peso.

Já vimos que o Brut Tysilio troca o “Mauron” de Godofredo por “Mor”. Além disso, como já foi apontado, o texto de Culhwch and Olwen grafa efetivamente o nome de Morien ap Iaen como “Moren”, sem um “i” antes do “e”.

Não há razão para que o nome desta figura na tradição galesa sobrevivente não possa ser simplesmente uma corrupção muito ligeira. Afinal, os galeses escreviam regularmente de forma errada o nome do famoso Magnus Maximus como “Maxen” em vez de “Maxim”. Se o conseguiam fazer com uma figura tão proeminente como o imperador romano, então certamente o poderiam fazer com um governante menor.

É também notável que Layamon, como mencionado anteriormente, escreveu o nome desta personagem como “Maurin”, com um “i” em vez de um “o”. Tendo estes factos em mente, não há razão para que Mawron de Glastonbury não possa ter sido a figura histórica por detrás de Moren ap Iaen e do Mauron de Worcester de Godofredo.

Jesus College MS 20, fólio 34r, mostrando o nome de Magnus Maximus escrito como ‘Maxen’ no final da linha central
Jesus College MS 20, fólio 34r, mostrando o nome de Magnus Maximus escrito como ‘Maxen’ no final da linha central
Considerações Cronológicas

Examinemos agora a cronologia para ver como isto funcionaria. Mauron de Worcester é apresentado como um aliado de Artur que esteve presente na sua coroação especial. Godofredo de Monmouth situa esta ao mesmo tempo que a substituição de Dubricius por David como principal bispo do sul do País de Gales.

Este acontecimento teve lugar no Sínodo de Brefi, que outros registos indicam ter ocorrido por volta de 560. Ver o artigo Bispo David, Tio do Rei Artur quanto às evidências desta data. Embora isto possa parecer tardio de mais, dada a data tradicional de 537 para a Batalha de Camlann do Rei Artur, existem evidências de que esta data tradicional foi na verdade recuada por cerca de trinta e três anos.

A Historia Brittonum, por exemplo, indica que a Batalha de Badon (que ocorreu cerca de vinte e um anos antes de Camlann, segundo os Annales Cambriae) teve lugar no reinado de Ida da Bernícia, cujo reinado começou em 547. Ver o artigo Quando Viveu Realmente o Rei Artur? para mais pormenores sobre isto e outras evidências.

Isto significaria que Mauron já era adulto por volta de 560, quando teve lugar a coroação especial de Artur. Além disso, se a tradição sobre ele ser o espião que informou Artur do ataque planeado por Baldulph for exata, então ele também já teria de ser adulto por volta de 540 ou algo assim, quando esse acontecimento provavelmente ocorreu.

Isto significaria que o seu nascimento teria sido provavelmente por volta de 520, senão antes. Naturalmente, se rejeitarmos a ligação entre Mauron e Baldulph como não histórica e usarmos simplesmente a sua presença na coroação de Artur como ponto de referência, então ele poderia ter nascido tão tarde quanto por volta de 540.

Em qualquer dos casos, ele plausivelmente poderia ter sido Mawron de Glastonbury. A carta em que ele aparece é datada de 601. Portanto, mesmo que usemos a estimativa de nascimento mais recuada para Mauron de Worcester, ele teria ainda apenas cerca de oitenta anos na altura da carta, o que é plausível.

Questões Geográficas

A única objeção notável à ideia de que Mawron de Glastonbury possa ter sido Mauron de Worcester é a geografia da questão. Embora Worcester e Glastonbury não fiquem de modo algum a uma distância impossível, a distância torna-se muito maior quando temos em conta a provável identificação do Mauron de Godofredo com o Moren ap Iaen de Culhwch and Olwen.

Como vimos anteriormente, a identificação de Mauron com Moren ap Iaen indica que a “Worcester” de Godofredo é na verdade um erro por Wrexham, chamada “Wyrcessham” na Idade Média. Esta fica perto do nordeste do País de Gales. Portanto, fica bastante longe de Glastonbury, que se encontra em Somerset, a sul do sudeste do País de Gales.

Contudo, esta não é uma objeção intransponível. É importante reconhecer que Mawron de Glastonbury não era um rei ou governante daquele território. Era, sim, um bispo. Isto permite a ideia de que ele possa ter viajado para longe do seu território de origem para aí servir.

Existem inúmeras hagiografias sobre figuras religiosas do período arturiano, e elas retratam regularmente os indivíduos em questão a viajar grandes distâncias. Isto vê-se mesmo nas hagiografias mais antigas e historicamente fiáveis.

Um exemplo é a Vida de São Samson, possivelmente datando já do século VII. Esta apresenta Samson a viajar desde o sudeste do País de Gales até à Bretanha, atravessando o Canal. A historicidade disto não está em dúvida e, no entanto, trata-se de uma deslocalização muito maior do que a de uma figura religiosa que se muda de Wrexham para Glastonbury.

Portanto, se aceitarmos que Mauron se tornou uma figura religiosa, então não há qualquer problema em ele se ter deslocado de Wrexham até ao sul, em Glastonbury.

De Governante Secular a Governante Religioso

Quanto ao conceito de um governante secular se tornar uma figura religiosa, também isto não é invulgar. Existem muitos exemplos disto. Um exemplo é Maelgwn Gwynedd, que em dado momento se retirou do trono para viver como monge.

Outro exemplo é Tewdrig de Gwent, que se retirou do trono para viver como eremita religioso. A vida de Illtud também é relevante. Embora não fosse um governante enquanto tal, era um oficial militar com um papel proeminente no reino de Poulentus de Glamorgan. Depois, por volta de 530, afastou-se dessa vida e tornou-se uma das figuras religiosas mais importantes da Britânia do século VI.

Portanto, o conceito de Mauron ter sido um príncipe a governar Wrexham e depois se ter tornado bispo já idoso não é de modo nenhum inverosímil.

Conclusão

Em conclusão, Mauron, conde de Worcester, é uma figura menor das lendas arturianas que aparece explicitamente pela primeira vez na Historia Regum Britanniae de Godofredo de Monmouth. Ele é um dos aliados do Rei Artur. Versões posteriores da lenda arturiana retratam Mauron como o espião que ajudou Artur a derrotar Baldulph, um líder saxão. Layamon diz-nos que ele era efetivamente parente de Artur.

Embora não possamos afirmá-lo definitivamente, as evidências sustentam a conclusão de que Mauron pode ser identificado como uma figura conhecida por Morien, ou Moren, ap Iaen. Tal como Mauron, ele era especificamente conhecido na tradição arturiana como um dos parentes e aliados de Artur. Aparenta ter sido um príncipe do noroeste do País de Gales. Isto torna provável que o seu território fosse efetivamente Wrexham em vez de Worcester, atendendo às semelhanças nas grafias medievais desses lugares.

Por fim, vimos que é provável que ele possa ser identificado como Mawron, um bispo de Glastonbury que testemunhou uma carta em 601. Se assim for, isto significaria que ele foi quase certamente uma figura histórica.

Fontes

Bartrum, Peter, A Welsh Classical Dictionary, 1993

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https://metseditions.org/read/Q0KDmd6WslY8f7QwSaL3DHzrZR8ldwZ

Por Caleb Howells

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