Segredos dos templos do antigo Egipto: como os egípcios honravam os deuses
Durante os 3000 anos de existência do Egipto faraónico, os templos do antigo Egipto funcionaram como lugares de culto e centros de sabedoria e aprendizagem. Como tal, os templos desempenharam um papel crucial na vida socioeconómica e religiosa do antigo Egipto.
Muitas vezes pensamos nos templos egípcios antigos como principalmente lugares de culto religioso, mas essa era apenas uma das muitas funções que cumpriram em tempos antigos.
Examinaremos como a vida no antigo Egipto girava em torno dos templos e como a casta sacerdotal que os governava conseguiu desafiar a autoridade dos faraós como resultado da riqueza e da influência sempre crescentes dos templos e das divindades a que estavam dedicados.
O culto religioso no antigo Egipto
Desde o alvorecer do Egipto faraónico, a religião desempenhou um papel de importância primordial na sociedade egípcia antiga. Após a unificação do Alto e do Baixo Egipto (cerca de 3100 a.C.) numa única entidade política sob o obscuro e semi-mitológico faraó Narmer (por vezes também conhecido como Menes), surgiu uma forte autoridade central com sede em Mênfis, que se tornaria a primeira capital do Egipto.
De Mênfis, os faraós da I, II e III dinastias reinaram como monarcas semi-divinos e representantes dos deuses na terra. O papel único do faraó como filho do divino significava que todo o Egipto e o seu povo estavam ligados misticamente à pessoa do soberano, que sozinho representava o seu povo perante os deuses e de quem dependiam também o anual crescer e inundar do Nilo.
Perto do fim do período do Antigo Reino (cerca de 2700 – 2180 a.C.), a autoridade faraónica declinou e com ela a capacidade do governo central de controlar os governantes locais chamados nomarcas, bem como os sacerdócios cada vez mais poderosos. Não obstante, a importância singular do faraó para a felicidade e a prosperidade globais do Egipto continuou a ser uma das características principais da civilização egípcia durante toda a sua longa história.
O papel do faraó como sumo sacerdote
Os egípcios consideravam o faraó como a ligação viva entre deuses e povo. Por isso o faraó não era apenas o líder político do país mas também um espiritual. Por esta razão, podemos ver o antigo Egipto como uma teocracia, pois o soberano cumpria o papel de líder político e de sumo sacerdote da religião de Estado ao mesmo tempo. Para os egípcios, contudo, uma tal divisão entre o temporal (mundano) e o espiritual teria sido estranha.
Como**«Sumo Sacerdote de Todo o Templo,»** o faraó era responsável pela construção de templos e monumentos em todo o Egipto para honrar os deuses e celebrar os seus próprios êxitos. Era o faraó quem oficiava as cerimónias e assegurava que ma’at, um conceito tipicamente egípcio de harmonia e equilíbrio, fosse mantida e que os deuses fossem venerados.
Templos do antigo Egipto: moradas terrenas dos deuses
Das numerosas divindades conhecidas dos antigos egípcios, apenas um punhado era universalmente venerado em todo o país. À medida que uma divindade ganhava proeminência, outra declinava. Sem dúvida, a política desempenhou um papel muito importante ao decidir que culto deveria ter a precedência e que divindade deveria tornar-se a mais importante.
Os faraós eram muitas vezes associados ao falcão deus Hórus, o filho de Osíris que dominava o céu e derrotou Seth, a encarnação do caos. Outra divindade importante era a deusa Ma’at, que representava verdade, justiça e harmonia. Entre as outras divindades de relevo estavam o deus sol Ra, Ísis, o imponente mas respeitado Anúbis, Thot, Sekhmet, Hathor e muitas outras.
A religião à sombra das pirâmides: templos do Antigo Reino
O período do Antigo Reino do Egipto tornou-se conhecido como a «Idade das Pirâmides» pois foi durante este tempo que a grande maioria das pirâmides egípcias foi construída pelos faraós da III, IV e V dinastias.
Já desde a III dinastia, os faraós construíram templos funerários perto das suas pirâmides onde seriam venerados durante centenas de anos após a sua morte. Um templo funerário tinha tipicamente um sacerdócio que cuidava do complexo em si e tomava parte em cerimónias que giravam em torno do culto do soberano e da divindade a que estava associado.
Entre os mais antigos templos funerários existentes está o templo do faraó Miquerinos, o construtor da terceira e mais pequena pirâmide no planalto de Gizé.
Além dos templos funerários, vários reis da V dinastia construíram templos solares, distintos tanto das pirâmides como dos templos funerários. O culto do deus sol Ra tinha ganhado proeminência durante a V dinastia, o período em que os faraós eram vistos como manifestações e representantes do deus sol.
O horizonte de um ser divino
Os templos egípcios honravam deuses específicos a que estavam dedicados e a que o templo pertencia. Na religião egípcia antiga, os templos eram considerados espelhos do universo e literais residências terrenas dos deuses.
Os templos eram de vital importância para honrar os deuses. O interior do templo egípcio continha muitas salas, a mais importante das quais era o sancta sanctorum que continha a imagem de culto, uma estátua do deus a que o templo estava dedicado.
Apenas o sumo sacerdote e o faraó estavam autorizados a entrar no sancta sanctorum e a realizar os complexos ritos necessários para assegurar o favor divino. Estes incluíam comumente a oferta de comida e de outros objectos sagrados como dádivas ao deus.
As estátuas dos deuses eram levadas em procissões sagradas durante as festas religiosas, mas ao povo comum não era permitido vê-las. Egiptólogos e estudiosos tendem a concordar que os comuns eram excluídos de participar nas cerimónias religiosas ou mesmo de pôr pé nos templos.
Os templos como sedes de poder e a crescente potência dos sacerdotes
A crise do Antigo Reino foi a crise da autoridade faraónica. Os faraós da IV dinastia como Quéops, Quéfren e Miquerinos tinham sido venerados como deuses vivos. Toda a autoridade estava concentrada nas mãos do monarca, que depois transferia parte do seu poder para os seus vizires e nomarcas para que o país pudesse ser governado de forma eficaz e os decretos do soberano feitos cumprir nas províncias.
Perto do fim do Antigo Reino, contudo, a autoridade do faraó foi atacada pelo nomarca e pelos sacerdotes. Isto precipitou uma crise política que culminou na fragmentação política, agora conhecida como o Primeiro Período Intermédio, quando o antigo Egipto estava de facto dividido em dois.
Apesar do caos político, não foi, como por vezes se acreditava, uma idade das trevas. O Egipto reuniu-se de novo sob o governo do faraó, o que marcou o início do período do Médio Reino, durante o qual a arte e a cultura egípcias floresceram.
Os templos eram os centros da aprendizagem
Desde tempos antigos, os sacerdotes cumpriam uma variedade de papéis na sociedade egípcia. Além do seu papel de intérpretes da vontade divina e guardiões dos templos, os sacerdotes agiam como sábios, professores, astrónomos, matemáticos, médicos e arquitectos.
Os templos serviam de centros de aprendizagem e os sacerdotes ajudavam o faraó na complexa tarefa de governar o país. Os templos estavam isentos do pagamento de impostos e podiam amontoar riqueza significativa. Os egiptólogos acreditam que uma porção consistente do Egipto era directamente controlada e administrada pelos templos.
A ascensão do poderoso sacerdócio de Amon
Com a transferência da capital de Mênfis para Tebas durante o Médio Reino, a divindade tebana Amon e o seu sacerdócio ganharam crescente proeminência. Amon foi fundido com o antigo deus sol Ra para se tornar um deus de Estado de facto sob o governo da XVIII dinastia do Novo Reino.
Os sacerdotes de Amon possuíam vastos trechos de terra não só no Alto Egipto mas também noutras partes do país. À medida que a sua riqueza aumentava, aumentava também o seu poder político. Vários faraós da XVIII dinastia tentaram inverter este processo favorecendo outros cultos.
Em particular, o faraó Akhenaton iniciou uma das primeiras revoluções religiosas do mundo renunciando ao culto de Amon e de outros deuses a favor do deus sol Aton. O projecto audaz de Akhenaton revelou-se de curta duração, e perto do fim da XX dinastia o poder dos sacerdotes de Amon eclipsou o do próprio faraó.
Karnak: o templo mais icónico do Egipto
Mesmo as pessoas que têm um conhecimento básico da história do antigo Egipto ouviram falar do icónico complexo templário de Karnak situado perto da moderna cidade de Luxor no Alto Egipto.
Por vezes indicado alternativamente como o Templo de Luxor, ergue-se como um dos exemplos mais impressionantes de arquitectura colossal do antigo Egipto. Como um dos templos egípcios mais famosos, Karnak atrai milhões de turistas de todos os cantos do mundo, que vêm admirar as magníficas ruínas do templo.
Karnak atingiu o auge da sua glória sob a XVIII dinastia, quando funcionou como o centro religioso do Egipto. Tebas era a capital do Egipto e também a cidade de Amon. O maior dos recintos do complexo templário era dedicado a Amon e controlado pelos seus sacerdotes.
Entre os faraós que ampliaram grandemente o templo estavam Tutemés III, Amenófis III e Ramsés II. Muitos faraós posteriores continuaram a construir em Karnak apesar do facto de a importância de Tebas declinar após o fim da XX dinastia e o enfraquecimento do Egipto durante o Período Tardio.
Mesmo que Tebas tivesse deixado de ser a capital do Egipto e o centro político tivesse sido deslocado para o Delta do Nilo, o complexo templário de Karnak permaneceu um importante centro religioso. Os Ptolomeus continuaram a fazer adições e a embelezar o Grande Templo de Amon mais de mil anos após o auge da glória do Egipto sob o Novo Reino. Karnak é provavelmente o templo antigo mais conhecido hoje.
Templos egípcios: os últimos restos de uma grande civilização
Os templos no Egipto eram mais do que lugares de culto religioso. Testemunham o génio criativo dos antigos egípcios e o modo em que se viam a si próprios e o seu lugar no mundo. Mais do que qualquer outra civilização antiga, os antigos egípcios valorizavam equilíbrio e harmonia, os dois valores fundamentais sobre cujas fundações tinha sido construída a sua sociedade.
Um templo no Egipto cumpria várias funções. Além de ser a morada terrena de um deus a que estava dedicado,** um templo era um centro de actividade económica e de aprendizagem**. Ligava as classes dirigentes do Egipto às massas do povo comum cuja devoção aos deuses tinha sido vital para manter a coesão social e a unidade política de todos os egípcios, independentemente do seu grau social.
Os templos preservaram para nós a arte do antigo Egipto, que teria sido perdida para a posteridade se não tivesse sido por muitas gerações de sacerdotes e escribas que preservaram o conhecimento e as tradições do antigo Egipto dentro das suas muralhas sagradas.
Os templos mais impressionantes do antigo Egipto
Pouquíssimos templos egípcios antigos sobreviveram ao assalto dos séculos. Além do complexo templário de Karnak, alguns dos templos egípcios antigos mais icónicos preservados hoje incluem o templo na ilha de Philae, o Templo de Edfu, o templo funerário de Seti I em Abidos, o Templo de Hatshepsut, Abu Simbel e o Ramesseum.
Conclusão
Tendo examinado a importância e o papel dos templos no antigo Egipto, chegamos às seguintes conclusões:
- Um templo no antigo Egipto servia de santuário do deus a que estava dedicado
- Os templos egípcios para os deuses serviam também a outros fins, sobretudo como centros de aprendizagem
- A poderosa casta sacerdotal estava à frente dos templos
- Os faraós construíam templos para honrar os deuses e mostrar o seu poder e a sua riqueza
- O Complexo Templário de Karnak era o maior e mais importante complexo templário egípcio
Os templos no antigo Egipto moldaram de forma decisiva a história, a sociedade, a arte e a arquitectura do Egipto. Como centros de culto religioso e de aprendizagem, os templos tiveram grande significado na vida religiosa, social, económica e política do Egipto faraónico. Sem os templos, o nosso conhecimento do antigo Egipto seria muito mais pobre, e muita da gloriosa história do antigo Egipto iria perdida nas névoas do tempo.













